Debate sobre a gordofobia no Brasil

Enviada em 17/08/2021

Em Carrossel, novela brasileira inspirada no clássico mexicano “Carrussel”, Laura é uma criança obesa que, devido ao seu peso, é constantemente atacada verbalmente por seus colegas. Ao sair da trama, adaptada pela escritora Iris Abravanel, é perceptível que o cenário descrito não distancia-se da realidade, em decorrência da falta de debate sobre a gordofobia no Brasil. Sob tal ótica, é cabível a análise de soluções para essa questão, geradora de problemas para a saúde mental dos indivíduos e para o desenvolvimento, advinda do apego a padrões estéticos e da negligência midiática.

Em primeira análise, na antiga civilização grega, a busca pela beleza era algo inerente à população, aspecto originado de uma cultura rica e cercada de valores estéticos. Nesse conteto, na cidade de Esparta, que prezava pela perfeição, crianças nascidas com o que fossem considerados defeitos eram sacrificadas. Em consonância, essa intolerância é presente na sociedade atual, de modo que não em sacrifícios, mas em violências físicas e verbais para pessoas que estejam, por exemplo, acima do peso, as quais suportam, infelizmente, bullying e gordofobia em grande parte de suas vidas. Nessa perspectiva, sem a discussão sobre o tema e a correta assistência psicológica, fatores escassos na sociedade brasileira, as vítimas desses ataques gordofóbicos acabam por desenvolver, tristemente, patologias mentais, tais como bulimia, anorexia, depressão e ansiedade.

Outrossim, a forma com a qual os veículos de mídia tratam a problemática pautada é negligente, de modo que o preconceito, já não debatido com frequência, é tomado como algo comum. Simone de Beauvoir, filósofa francesa do século XX defendia, em reflexão, que a coisa mais espantosa nos escândalos é que as pessoas habituam-se a eles. Nessa análise, o pensamento de Simone aplica-se no Brasil, visto que, dentre outros fatores, redes sociais e meios televisivos abordam, com muitas falhas, sobre a aversão a pessoas obesas. Nessa visão, os cidadãos não discutem esse impasse, o que contribui para que tal absurdo não seja revertido. Isso possibilitou que, em 2017, uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (IBOPE), revelasse que cerca de 90% dos brasileiros já presenciaram um ato de gordofobia, um entrave concomitante para o desenvolvimento social.

Destarte, o debate sobre a gordofobia, que possui a origem de sua escassez no apego a padrões e à falta de atenção da mídia, deve ser realizado. Portanto, o Ministério da Saúde, órgão que rege a saúde pública no Brasil, deve, por intermédio das prefeituras e de empresas de tecnologia, dar amparo psicológico às vítimas de gordofobia, bem como, se necessário, auxílio médico e nutricional, além de criar propagandas que discutam a questão nos meios de comunicação. Quiçá, isso instigará a minimização de casos como o de Laura, de modo a garantir a saúde mental e o desenvolvimento.