Debate sobre a gordofobia no Brasil

Enviada em 16/08/2021

A filósofa alemã Hannah Arendt propõe uma ideia sintetizada pela dualidade entre o “mal banal” e o “mal racional”. O primeiro é aquele que se espalha de maneira inconsciente e não proposital, enquanto o segundo tem uma intenção predeterminada, podendo, inclusive, influenciar o desenvolvimento do anterior. Seguindo esse raciocínio, observa-se que a gordofobia possui, no Brasil, raízes em dois “males”: o estigma que envolve o corpo gordo - o banal - e a busca desenfreada por lucro - o racional.

Constata-se, a princípio, que a gordofobia presente no Brasil tem forte relação com o estigma que prevalece sobre os corpos gordos. Essa realidade se deve, essencialmente, a um padrão de beleza intangível, alimentado constantemente pelos meios de comunicação. Nessa perspectiva, o sociólogo francês Émile Durkheim desenvolveu a ideia dos “fatos sociais”, ou seja, na concepção do estudioso, os comportamentos individuais são regidos pela maneira coletiva de agir e pensar. Isso implica dizer que a mídia brasileira - na condição de formadora de opinião -, ao disseminar corpos magros como detentores exclusivos de saúde, felicidade e desejo, moldam uma realidade pouco compatível com a diversidade de formas presentes no país. Desse modo, pessoas gordas sofrem um processo de estigmatização que culmina na construção de uma gordofobia excludente e preconceituosa.

Outrossim, percebe-se que esse cenário é potencializado pela busca monetária desenfreada. Isso porque, segundo o economista político Max Weber, o capitalismo tem como característica fundamental a racionalização do lucro, isto é, a ação calculada com o objetivo único de monetizar. Essa situação é observada, por exemplo, nas grandes grifes brasileiras de roupa que, segundo relatos recentes de pessoas ligadas à moda, propositalmente não produzem tamanhos maiores de roupa. A ação se baseia na ideia de que corpos “acima do peso” são incapazes de vestirem bem as peças, o que, na visão das empresas, prejudica as vendas. A postura citada reflete uma ausência de responsabilidade social e instiga a percepção da magreza como um status a ser alcançado, perpetuando, assim, a gordofobia.

Depreende-se, portanto, que o debate acerca da gordofobia no Brasil é de extrema importância e precisa ser fomentado. Para tanto, é necessário que as instituições escolares, em conjunto com o Ministério da Educação, invistam no combate à estigmatização dos corpos. Isso deve ser feito através de atividades extracurriculares - como a apresentação de trabalhos em grupo sobre o tema -, bem como por meio de palestras ministradas por profissionais de saúde, especialmente das áreas de nutrição e psicologia. O objetivo dessas ações é a desconstrução da imagem preconceituosa que ainda se faz tão presente na sociedade, e, para além disso, o desenvolvimento de uma geração de jovens mais confortáveis com seus corpos. Dessa forma, os “males” preconizados por Arendt desaparecerão.