Debate sobre a gordofobia no Brasil
Enviada em 17/08/2021
Produzido no final dos anos 90, o filme “Matilda” tornou-se popular, conquistando públicos diversos. Esse longa apresenta uma sequência de cenas icônicas, eternizadas na memória dos espectadores. Dentre elas, destaca-se o momento em que a personagem Bruce, um garoto acima do peso, é obrigado a comer um bolo inteiro diante de seus colegas de escola, após ter roubado uma fatia, sendo submetido, assim, aos comentários pejorativos e às humilhações daqueles. A partir disso, é possível identificar a normalização do discurso gordofóbico existente na sociedade e a veiculação midiática de estereótipos negativos acerca do corpo gordo, o que corrobora a perpetuação da gordofobia.
Em primeira análise, é relevante considerar a influência dos fatos sociais na construção da vida em coletividade. Desse modo, o sociólogo Durkheim afirmou que eles antecedem o indivíduo e moldam sua existência através da coerção social, que pode ser exercida através das leis ou das sanções espontâneas, as quais são representadas pelas reprovações de condutas ou modos de existência assumidos em desacordo com os padrões estabelecidos por um grupo em questão. Nesse sentido, a valorização do corpo magro em detrimento de outras constituições corporais faz com que os indivíduos dissoantes do padrão sofram, intensamente, a ação da coerção, manifestada em forma de preconceito.
Além disso, as mídias televisiva e digital se comportam como vetores de propagação de falsas ideias a respeito dos corpos humanos, propondo condições estéticas inatingíveis. Sendo assim, é possível aproximar ficção e realidade ao observar que, tal qual no conto “O Espelho”, escrito por Machado de Assis, há o enaltecimento das características externas dos sujeitos e a preterição das qualidades intrínsecas a cada um deles. Esse processo, em consonância à história do protagonista Jacobina, resulta em quadros psíquicos patológicos à medida que as pessoas não se sentem valorizadas por suas aparências.
Portanto, é evidente a necessidade de haver, no Brasil, uma intensificação do debate sobre a gordofobia. Tendo isso em vista, o Ministério da Saúde deve promover, juntamente ao Ministério da Educação e às mídias televisivas e digitais, ações educativas que desmistifiquem concepções populares ilegítimas em relação aos temas sobrepeso e obesidade, objetivando, através da distribuição de informações embasadas pela ciência, a promoção da empatia nos consumidores desse conteúdo e o combate à gordofobia. Essas ações deverão ocorrer através de publicações em redes sociais e propagandas televisivas e contar com o apoio de equipe multidisciplinar, composta por médicos, psicólogos, nutricionistas e sociólogos, de maneira que a vivência de pessoas gordas seja ressignificada perante a sociedade e haja, enfim, o respeito à diversidade dos corpos.