Debate sobre a gordofobia no Brasil

Enviada em 19/08/2021

No livro “Frankenstein”, de autoria de Mary Shelley, são relatados episódios de vida do monstro de Frankestein, trazido à vida por meio da junção de partes de cadáveres humanos, o qual, movido pela repulsa com que era tratado em meio à sociedade graças aos seu corpo e suas feições que divergiam da noção de humanidade, desenvolve aversão ao convívio na coletividade. Analogamente ao exposto, ao observar as condições em que vivem indivíduos acima do peso no corpo social, constata-se um preconceito estrutural associado à imagem e aos traços dessas, fator que faz emergir o debate sobre a gordofobia no Brasil. Por isso, graças à idealização excessiva do físico e à superficialidade em meio às relações interpessoais, tal problemática assola convívio social.

Em primeiro plano, a definição de um modelo ideal ao corpo humano corrobora a conjectura. Nesse sentido, a manifestação literária “Poema em linha reta”, produzida pelo escritor Fernando Pessoa, traz à tona a idealização das ações e do semblante do indivíduo na contemporaneidade, e relata a aparente existência do homem isenta de imperfeições. Dessa forma, a partir do momento em que, hodiernamente, há a designação de um padrão obrigatório das atitudes e da aparência humana e uma inferiorização dirigida àqueles que não atingem o modelo exemplar, o corpo social brasileiro torna-se um ambiente propício a se desenvolver a aversão a pessoas acima do peso. Logo, devido à formulação de um exemplar humano intangível, como relata Fernando Pessoa, a gordofobia emerge na sociedade.

Ademais, a superficialidade com que são tratadas as relações sociais agrava, ainda mais, o quadro. Nesse viés, o conceito de modernidade líquida, formulado pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman, debate sobre a efemeridade das interações interpessoais na sociedade hodierna, o que torna o vínculo entre indivíduos raso e inconsistente. Dessa maneira, no instante em que há a desvalorização de laços sociais, há, também, o desaparecimento da empatia para com o outro, fator que fortalece atitudes e pensamentos preconceituosos, e, desse modo, a gordofobia surge como uma intolerância danosa à sociedade. Assim, graças aos problemas advindos ao cenário, são necessárias medidas interventivas.

Portanto, depreende-se que a questão da gordofobia no Brasil é um desafio e carece de soluções. Sendo assim, representantes midiáticos de marcas relacionadas ao ramo da beleza, como a revista Capricho, devem, por meio da inclusão e do enaltecimento de pessoas acima do peso em matérias, desvincular a imagem de massa excessiva à imperfeição e ao desprestígio social, a fim de formular uma sociedade inclusiva, receptiva e amigável e, por conseguinte, tornar o corpo social um ambiente menos hostil àquilo que divirja da concepção de ideal, fator que impedirá que surjam casos análogos a “Frankestein” em meio à coletividade.