Debate sobre a gordofobia no Brasil
Enviada em 19/08/2021
Em 1490, o pintor italiano Leonardo da Vinci criou o “Homem Vitruviano”, uma de suas obras mais famosas, que representa um corpo humano de proporções ideais e espelha o padrão de beleza da época. De maneira análoga, no Brasil contemporâneo, observa-se que produções audiovisuais, como peças publicitárias, retratam pessoas magras como as mais belas, o que acarreta a estigmatização de indivíduos gordos. Com isso, o preconceito contra esse grupo, denominado gordofobia, está presente no país associado à falta de representatividade na mídia e à acessibilidade precária, o que colabora para o isolamento social desses cidadãos e configura um cenário para o qual é preciso atentar-se.
Em primeiro lugar, vale salientar que é raro pessoas acima do peso ocuparem posições de destaque em filmes e séries, o que é surpreendente para as personagens e para os espectadores quando acontece. Essa situação é demonstrada no musical Hairspray, no qual a protagonista Tracey é desencorajada a seguir seu sonho de aparecer na televisão por conta de seu corpo. A ausência de indivíduos gordos na imprensa e na indústria cinematográfica contribui para a perpetuação da valorização de corpos magros e, consequentemente, da gordofobia, na medida em que a falta de representatividade provoca uma sensação de não pertencimento e de inferioridade, o que faz com que esses cidadãos se isolem dos demais.
Ademais, os assentos em ônibus e metrôs espalhados pelo Brasil não são grandes o suficiente para acomodar essas pessoas com conforto. Somado a isso, a variedade nos tamanhos de roupas vendidas no país é baixa, como retratou o programa Profissão Repórter sobre a obesidade, o que limita as opções de indivíduos acima do peso e ressalta que eles são ignorados pelos estabelecimentos de vestimentas. Em síntese, as necessidades desse grupo não são atendidas pela sociedade em geral, que o trata como se não existisse. Isso alimenta o preconceito e apresenta consequências negativas no bem-estar dos estigmatizados, como baixa autoestima, ansiedade e até mesmo depressão, o que já foi demonstrado pela revista científica Nature Medicine.
Isto posto, fica claro que a tomada de medidas que combatam a gordofobia no Brasil é necessária. Para isso, é fundamental que o governo federal veicule campanhas midiáticas na televisão aberta, em horário nobre, que incluam depoimentos de pessoas gordas de maneira a evidenciar os desafios que enfrentam no cotidiano, com o objetivo de conscientizar a população e a indústria da moda, do cinema e do transporte que elas integram a sociedade e devem ser respeitadas como quaisquer outros cidadãos. Dessa forma, pela promoção da representatividade, não haverá mais um padrão de beleza como o modelo de Leonardo da Vinci.