Debate sobre a gordofobia no Brasil
Enviada em 20/08/2021
Promulgada em 1988, a Constituição Federal estabelece, como um de seus objetivos fundamentais, a construção de uma sociedade igualitária. Todavia, essa máxima não é aplicada à visão equitativa da aparência corporal, uma vez que a gordofobia discrimina grande parcela dos brasileiros. Nesse sentido, o fator da perpetuação de concepções ignorates possibilita o potencial desencadeamento de consequências nefastas aos alvos desse tipo de violência.
A princípio, é relevante pontuar a influência do paradigma ocidental dos padrões de beleza ao longo dos séculos. Sob esse âmbito, na Antiguidade Clássica, os pensadores gregos apresentaram a vanguarda na idealização do corpo com a caracterização apenas estética, na busca da perfeição teoricamente estipulada. Posto isso, destaca-se que tal formulação perdura no ideário hodierno, o qual impõe que a única representação aceitável é a do esguio, classificando, erroneamente, qualquer variação como “não saudável”. Logo, muitas vezes, a fajuta preocupação com o bem-estar do indivíduo mascara o preconceito enraizado acerca do físico voluptuoso, de modo a promover uma grave inferiorização desse grupo.
Posteriormente, como reflexo dessa realidade, sequelas psicossociais são iminentes às vítimas da gordofobia. Por essa óptica, “My mad fat diary”, série televisiva britânica, retrata a jornada de uma adolescente com a saúde mental fragilizada em razão de inseguranças provenientes de julgamentos da sociedade no que concerne a sua aparência. Analogamente, fora da ficção, é comum que comentários perjorativos, equivocadamente vistos como inofensivos, acerca do peso das pessoas tenham efeitos psicológicos preocupantes, com a possível propensão de patologias como a depressão e a ansiedade. Destarte, essa majoritária insensibilidade, impulsionada pela visão estabelecida previamente do que é “belo”, tem um impacto negativo salientável na qualidade de vida emocional dos cidadãos.
Diante disso, a coibição da gordofobia no Brasil é primordial. Dessa maneira, urge que as instituições educacionais, por meio da implementação de iniciativas interdisciplinares, promovam debates engajados em relação ao preconceito sofrido por pessoas gordas. Nesse projeto, seriam realizadas rodas de conversa mediadas por profissionais capacitados — com abordagens biológicas e sociológicas —, com o objetivo da dissipação, a datar da infância, de noções arcaicas de padrões de beleza, com a incitação da validação de todos os tipos de corpos. Assim, paulatinamente, os ideais almejados constitucionalmente serão alcançados.