Debate sobre a gordofobia no Brasil

Enviada em 20/08/2021

Na obra “Ensaio sobre a cegueira”, o autor José Saramago descreve uma sociedade que, gradativamente, torna-se cega. Fora desse contexto metafórico, é exatamente isso que ocorre quando a obesidade e o sobrepeso são ignorados. Essa problemática, por sua vez, impulsiona um cenário perturbador o qual permanece presente na realidade brasileira, seja pela negligência governamental, seja pela postura preconceituosa do corpo social.

Por evidência, pode-se afirmar que a inoperância efetiva do Governo corrobora a perenização desse cenário. Diante desse contexto, percebe-se que tal negligência fomenta essa problemática visto que, a falta de investimentos financeiros em propagandas que normalizem o padrão “acima do peso”, em parcerias com a mídia, com enfoque no protagonismo de personagens com esse padão corporal, contribuem para o surgimento de problemas psicológicos, como a depressão, derivada pela baixa autoestima.  De acordo com a filósofa Hannah Arendt, “um comportamento passa a ser realizado inconscientimente a partir da normatização de situações”. Em paralelo a isso, a gordofobia permanece presente na rotina de 92% dos cidadãos, como revela um estudo do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (IBOPE).

Ademais, outro fator importante é a herança histórica cultural da sociedade quanto à naturalização de um padrão estético. Isso porque, desde o século XIX, as mulheres buscavam a magreza que na época era imposta como padrão de beleza, e que foi passada entre as gerações. Segundo o sociólogo Pierre Bourdieu, “a sociedade tende a preservar e a naturalizar estruturas de uma época”. Logo, o conservadorismo de tal pensamento funciona como base para o agravamento da problemática.

Portanto, medidas são necessárias para mitigar esse impasse. Para isso, cabe ao Estado, por meio do Ministério da Saúde, em parcerias com escolas, elaborar e implementar um programa de palestras sobre a obesidade, a fim de atenuar a manipulação comportamental da sociedade. Além disso, compete a mídia intensificar campanhas que valorizem e estimulem a participação e a inclusão desse grupo social para promover a quebra de preconceito. Dessa forma, poder-se-á esperar uma sociedade menos crítica e mais empática quanto aos diferentes padrões estéticos.