Debate sobre a gordofobia no Brasil

Enviada em 20/08/2021

A Constituição Federativa do Brasil de 1988 prevê, em seu artigo 6º, a saúde como direito inerente a todo cidadão brasileiro. Entretanto, tal prerrogativa não tem sido assegurada na prática, quando se observa a gordofobia – aversão às pessoas acima do peso – existente no Brasil, o que dificulta a efetivação desse direito social para esses cidadãos. Desse modo, faz-se imperiosa a análise dos fatores favorecedores desse quadro, com ênfase na ausência de políticas públicas eficazes e no preconceito.

Convém ressaltar, a princípio, a ausência de medidas governamentais eficientes, no que tange ao bem-estar de pessoas gordas no Brasil. A exemplo disso, segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM), entre adultos obesos, de 19 a 42% sofrem com a discriminação, sendo essas taxas ainda mais altas entre as mulheres. Dessa forma, explicita-se o fato de que o bem-estar mental dessas pessoas, muitas vezes, é afetado pela má atuação do Estado, uma vez que a discriminação as propiciam ao isolamento social e ao desenvolvimento de transtornos mentais, como ansiedade e depressão. Essa conjuntura, segundo o filósofo contratualista John Locke, configura-se como uma violação do que ele denomina por “Contrato Social”, uma vez que o Estado não cumpre o seu dever de assegurar direitos indispensáveis, como a saúde, o que, infelizmente, é notório no país.

Ademais, é pertinente ressaltar o preconceito do corpo social como impulsionador desse quadro problemático. Nesse viés, o filme sul-coreano “Parasita” retrata perfeitamente esse contratempo, uma vez que tanto no filme quanto nessa questão, pessoas com realidades de vida opostas compartilham o mesmo ecossistema, mas ficam confinadas em seus mundos individuais, sem compreender as necessidades do outro. A partir disso, tem-se o fato de que as pessoas gordas são desmotivadas a buscarem atividades físicas e a iniciarem tratamentos médicos, pois temem o preconceito nesses processos, o que contribui para a manutenção da obesidade. Logo, é inadmissível que essa realidade discriminatória continue a perdurar.

Depreende-se, portanto, a necessidade de combater esse imbróglio. Para isso, o Executivo, por meio da mídia, deve divulgar materiais educativos que visem ao fomento das pessoas gordas às atividades físicas, a fim de salientar a indispensabilidade do esporte para a qualidade de vida, o que deve estimular a redução da obesidade no país. Além disso, cabe ao Ministério da Justiça, em parceria com empresas de tecnologia, criar canais de denúncias de atos de gordofobia, a fim de identificar atos discriminatórios e desestimular essas práticas nocivas. Assim, será concretizada uma sociedade mais saudável, em que o Estado desempenha corretamente o “Contrato Social”, tal como afirma John Locke.