Debate sobre a gordofobia no Brasil

Enviada em 01/09/2021

Segundo o filósofo Pico Della Mirandola, a vontade e a autonomia são imprescindíveis para a liberdade, pois, sem esta, não há sentido na existência humana. Entretanto, na hodiernidade, indo de encontro com o teórico, enxerga-se uma realidade na qual as pessoas têm a sua individualidade e a sua escolha suprimida, não sendo livres para serem, por exemplo, acima do peso. Destarte, diante desse cenário que potencializa a gordofobia, é necessário um debate sóbrio sobre o assunto, que explique tanto o porquê de o preconceito ser um problema, quanto o motivo de ele persistir no Brasil.

Em primeiro plano, vale destacar que a discriminação contra indivíduos acima do peso afeta a autoestima deles. Sob esse viés, o filme “O amor é cego”, lançado em 2001, revela que a personagem Rosemary, que era obesa, como resultado de diversos anos escutando piadas a respeito de si, tinha uma autoimagem frágil, de modo que não sabia reagir aos elogios que recebia. Fora da ficção, é sabido que a gordofobia dificulta o amor-próprio, pois as vítimas dessa prática internalizam a fala de seu opressor e, dessa forma, não enxergam beleza nelas mesmas. Tal cenário faz com que, aos poucos, não se aceitem e optem pelo isolamento social não só como uma forma de se esconderem do convívio com pessoas consideradas “belas”, mas também por medo de serem alvos de zombaria.

Ademais, em segundo plano, é lícito analisar que esse preconceito persiste pela presença de estereótipos enraizados na sociedade que foram potencializados pelas redes sociais. A partir dessa perspectiva, o padrão de corpo ideal está presente no ideário coletivo desde a Grécia Antiga, haja vista que nas esculturas apenas um tipo de beleza é retratado: a do corpo musculoso. Desde então, esse arquétipo inalcançável se perpetua como modelo a ser seguido, de maneira que o que foge dele é considerado feio e errado. Além disso, a popularização das redes sociais fez com que essa manutenção fosse intensificada, tendo em vista que os influenciadores digitais, por exemplo, “vendiam” a imagem de corpo perfeito como uma forma de atrair público, manipulando seus seguidores -direta ou indiretamente- a não aceitarem outra maneira de constituição física. Assim, a gordofobia tornou-se intrínseca ao ambiente digital.

Portanto, para que a discriminação contra obesos seja mitigada, é fundamental que o Ministério da Cidadania, em parecia com o Ministério da Saúde, promova debates, intermediados por médicos que são formadores de opinião pública - como Dráuzio Varela, que exponham não só os riscos à saúde mental das vítimas da gordofobia, mas também o impacto dos influenciadores digitais na perpetuação e legitimação desse tipo de preconceito. Dessa maneira, o Brasil dará um primeiro passo à eliminação desse problema, permitindo que as bases da liberdade propostas por Mirandola sejam respeitadas.