Debate sobre a gordofobia no Brasil
Enviada em 15/09/2021
Lima Barreto, em seu livro “Os Bruzundangas”, criticou vários aspectos do Brasil da primeira metade do século XX, mormente no que tangia às mazelas sociais. No entanto, apesar do tempo decorrido desde a publicação da obra, ainda hoje se faz necessário apontar e discutir inúmeros problemas que subsistem no país, destacando-se, por certo, a problemática da gordofobia no Brasil, a qual ocorre, infelizmente, em razão da negligência governamental e da sociedade.
Em primeira análise, nota-se que a Constituição Cidadã de 1988 assegura a todo brasileiro o direito à saúde. Entretanto, esse direito não é efetivado. Isso é explicitado na medida em que, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, um a cada quatro brasileiros de 18 ou mais anos de idade é obeso. Isso ocorre por diversas causa possíveis, sendo elas psicológicas ou físicas. Contudo, é notória a precariedade do investimento na saúde, sendo essa comprovada pelos altos índices de obesidade. Nessa esteira de pensamento, cabe lembrar as ideias de John Locke, o qual dizia que o indivíduo, por ter sua relação com o Estado baseada na confiança mútua, pode, sempre que essa confiança for rompida - como no desrespeito supracitado à Carta Magna -, rebelar-se e reivindicar seus direitos. Dessarte, é dever do cidadão exigir o cumprimento da lei maior.
Outrossim, a própria sociedade é responsável pela manutenção desse problema. Tristemente, o brasileiro banaliza a obesidade: praticando bullying, inferiorizando a estética e tons de humor pejorativos, fazendo com que o indivíduo que sofre desse mal, piore ainda mais sua situação. Não se trata apenas de uma questão de saúde, a gordofobia vai além e ataca diretamente à autoestima do indivíduo. Todavia, segundo o pedagogo francês Célestin Freinet, é possível superar qualquer pensamento errôneo já estabelecido em uma sociedade, bastando para isso o desejo de mudança dos agentes sociais. Assim sendo, uma mudança nos valores do corpo social é fundamental para mitigar as dificuldades no combate ao preconceito com obesos no Brasil.
Diante dos fatos citados, é fulcral que o Estado, por meio de uma parceria entre o Ministério da Educação e o Ministério da Saúde, crie um projeto para ser desenvolvido nas escolas e ambientes públicos, o qual promova palestras e atividades lúdicas a respeito dos direitos constitucionais da saúde, bem como instrua o bom convívio e o fortaleça o encorajamento ao combate à obesidade, através de tratamentos clínicos ou psicológicos. Porquanto que ações culturais coletivas têm imenso poder transformador, espera-se que a comunidade escolar e a sociedade no geral, conscientizem-se. Se assim for feito, o Brasil estará um passo mais próximo de deixar de ser o país que Lima Barreto criticava, para tornar-se um país desenvolvido de fato.