Debate sobre a gordofobia no Brasil
Enviada em 14/10/2021
A série britânica “My Mad Fat Diary” narra a história de Ray, estudante de 16 anos que tenta cometer suicídio após sofrer discriminação por ser gorda. De forma análoga à obra ficcional, grande parte da população sofre preconceito por estar fora do padrão corporal e esse cenário deriva tanto dos estigmas associados a essas pessoas quanto da própria dinâmica da sociedade contemporânea. Ao ter em mente que o preconceito é incompatível com o princípio de isonomia constitucional, faz-se necessária a discussão acerca da gordofobia no Brasil.
Em primeira análise, é fulcral pontuar que os estigmas ligados às pessoas gordas contribuem para a sua marginalização, ao mesmo tempo que fomentam distúrbios mentais como a depressão. Sob essa ótica, dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que mais de 60% da população tupiniquim sofre com excesso de peso, ou seja, criar um ambiente hostil não ajuda a atenuar o avanço da obesidade. Ademais, culpabilizar só o indivíduo é uma prática reducionista, visto que a gordura demasiada é multifatorial e engloba aspectos financeiros, de disponibilidade de tempo ou ainda disfunções mentais, isto é, vai além do sedentarismo e de uma alimentação desbalanceada.
Em segunda análise, a dinâmica social também endossa a permanência de hábitos não saudáveis, uma vez que as relações trabalhistas do século XXI deixam cada vez menos tempo livre ao trabalhador. Nesse contexto, o filósofo sul-coreano Byung – Chul Han aponta que a insana busca pela alta produtividade leva os indivíduos a perderem os prazeres da vida, assim a chamada “sociedade do cansaço” prioriza o consumo rápido, o que se traduz em uma alimentação desregrada e embasada por alimentos ultraprocessados, que são baratos, possuem uma densidade calórica alta, mas são escassos em nutrientes.
Diante do exposto, medidas exequíveis são necessárias para conter o avanço da gordofobia. Dessarte, com o intuito de democratizar o acesso à informação sobre a nutrição e atenuar as práticas de discriminação, é mister que o governo federal, por meio do Tribunal de Contas da União, direcione capital para o Ministério da Educação, que deverá reverter a verba na implantação da educação alimentar nas escolas, mediante palestras realizadas por profissionais acerca da relevância de optar por escolhas mais saudáveis, assim como ensinar sobre valor biológico dos alimentos e como ler rótulos nutricionais para que possam fazer escolhas mais conscientes. Além disso, debates sobre a gordofobia devem ser realizados, com vista à integrar os conhecimentos e desconstruir a imagem negativa imposta aos gordos. Desse modo, espera-se contribuir para a formação de adultos que priorizem a saúde em detrimento do ideal estético e respeitem as diferentes configurações corporais.