Debate sobre a gordofobia no Brasil
Enviada em 01/11/2021
O jornalista Gilberto Dimenstein, ao produzir a obra “O Cidadão de Papel”, afirmou que a consolidação de uma sociedade democrática exige a garantia dos direitos fundamentais de um povo. No entanto, ao observar a gordofobia, constata-se que a tese do escritor não tem sido praticamente assegurada, haja vista a quebra de direitos universais, pois a violência é uma das marcas de tal prática, fato que é contra os princípios democráticos em que o país é gerido. Com efeito, é imprescindível enunciar os aspectos socioculturais e a insuficiência legislativa como pilares da chaga.
Primeiramente, vale destacar o fator grupal. Conforme Jurgen Habermas, a razão comunicativa - ou seja, o diálogo - constitui etapa fundamental do desenvolvimento social. Sob essa óptica, a falta de estímulo ao debate a respeito do preconceito contra obesos, todavia, coíbe o poder transformador da deliberação e, consequentemente, ocasiona a falta conhecimento da população sobre seus impactos, além de fazer com que ela haja embasada no senso comum, sem reinvindicar melhorias e, assim, repetindo o mesmo erro. Destarte, discorrer criticamente o problema é o primeiro passo para a legitimação do progresso habermeseano.
Ademais, merece atenção o quesito constitucional. Segundo Jean-Jaccques Rousseau, os cidadãos cedem parte da liberdade adquirida na circunstância natural, para que o Estado garanta direitos intransigentes. A gordofobia, entretanto, contrasta a concepção do pensador na medida em que, seja pela falta de interesse dos órgãos públicos, seja pela dificuldade em administrar um território de dimensões continentais, pouco é feito pelo governo para que esse tipo de agressão acabe, ou seja, mecanismos que garantam o bem do respeito e dignidade não são concretizados, deixando a população obesa vulnerável à ataques preconceituosos. Dessa forma, com o fito de dirimir o revés, ações precisam ser executadas pelas autoridades competentes.
Entende-se, portanto, a temática como sendo um obstáculo intrínseco de raízes culturais e legislativas. Logo, a mídia, por intermédio de programas televisivos, deve discutir o assunto com especialistas na área, com o objetivo de mostrar as reais consequências do problema, apresentar visão crítica e orientar os espectores acerca do impasse, como também estimular o pensamento participativo no corpo social. Essa medida ocorrerá por meio da elaboração de um projeto estatal, em parceria com o Ministério das Comunicações, ao incluir mesmo nas Diretrizes Orçamentárias. Em adição, o Governo Federal deve desenvolver o preparo de profissionais para que eles recebam denúncias de gordofobia e tomem as medidas cabíveis. Desse modo, com a razão comunicativa de Habermas e a justiça de Rousseau, a sociedade brasileira deixará de ser uma comunidade de papel, como enfatizou Dimenstein.