Debate sobre a implementação da telemedicina no Brasil

Enviada em 12/01/2021

O livro “Fahrenheit 451” mostra, dentre tantos outros aspectos, uma realidade distópica em que os seres humanos vivem alienados por grandes telões de entretenimento. Fora da ficção, as sociedades contemporâneas, também se envolveram entusiasticamente com telas de computadores, televisões e, principalmente, celulares. Nesse prisma, torna-se conveniente que, ao invés de reservar os aparelhos para pretensões vazias, como acontece no livro, as telas possam ser protagonistas de um propósito maior, tal qual o da telemedicina. Contudo, no Brasil, para transformar a proposta em realidade, faz-se necessário investir na instituição de bases e, sobretudo, acesso democrático à modalidade.

Em uma perspectiva inicial, é preciso reconhecer o caráter ainda incipiente da telemedicina no país, que contou com incentivos maiores ainda muito recentemente, como na lei 13.989, sancionada em Abril de 2020, em razão da urgência do coronavírus. Sob essa ótica, torna-se imprescindível o investimento na capacitação de profissionais da saúde para essa vertente digital. Afinal, tal como defendido pelo filósofo inglês John Locke, a mente humana é como uma “tábula rasa”, na qual o conhecimento é acumulado com a experiência. Sumariamente, é relevante a instrução e o contato prévio de médicos e trabalhadores da saúde para que haja uma implementação satisfatória do modelo no país.

Outrossim, é igualmente pertinente investir na diminuição dos entraves que impedem o contato de pessoas mais pobres com a telemedicina. Efetivamente, de acordo com uma pesquisa divulgada pela BBC ainda no início da pandemia, cerca de 30% dos brasileiros não têm acesso à internet, fator que pode, de fato, ameaçar a adesão ao modelo da telemedicina. Tal como defendido pelo autor brasileiro Ariano Suassuna, “é difícil vencer a desigualdade secular que dilacera o Brasil em dois países: o dos privilegiados e o dos despossuídos”.

Dessa maneira, a implementação da telemedicina no Brasil é um fator relevante que, não obstante, encontra desafios nas desigualdades e na ainda não instruída realidade do sistema de saúde nacional para tal. Portanto, é de responsabilidade do Ministério da Saúde, em parceria com o Governo Federal, a partir da disponibilização de cursos de instrução à medicina à distância para profissionais da saúde e, sobretudo, de aparelhos essencialmente destinados a esse tipo de consulta (tablets de baixo custo apenas para esse propósito), designados temporariamente a pacientes de baixa renda por hospitais e clínicas vinculados ao SUS (Sistema Único de Saúde), minimizar as barreiras que impedem a adesão e evolução do modelo. Assim, finalmente, o Brasil terá uma realidade favorável ao sucesso da implantação do modelo telemédico.