Debate sobre a qualidade do ensino superior a distância no Brasil

Enviada em 08/12/2020

No livro “Ensaio sobre a cegueira”, de José Saramago, uma cegueira generalizada acomete o corpo social, o que pode ser interpretado como o estado de apatia e de irreflexão da sociedade pós-moderna. Ao mergulhar nessa distopia, para tecer reflexões sobre a qualidade do ensino superior a distância (EAD) no Brasil, vê-se a necessidade de se construir uma consciência coletiva, baseada na reflexão e na empatia, na sociedade hodierna. Nesse sentido, cabe analisar de que forma a infraestrutura digital necessária para a realização do EAD pode ser um problema, bem como esclarecer por que o despreparo do corpo docente das universidades corrobora para a ineficiência dessa atividade.

Em face dessa proposição inicial, é preciso ressaltar que o acesso a educação em áreas periféricas do país é limitado quando comparado ao dos centros urbanos e, portanto, o ensino a distância se torna necessário para mitigar essa desigualdade. Nessa lógica, em uma analogia ao pensamento de Saramago, é notória uma sociedade marcada pela letargia, uma vez que a faculdade e os estudantes necessitam de infraestrutura digital para a devida realização do EAD e nem todos os alunos possuem condições financeiras para arcar com essa demanda. Isso significa que os jovens de baixa renda são excluídos desse processo. Dessa forma, percebe-se um quadro marcado pela ineficiência da educação a distância, já que não é acessível para os indivíduos de todas as esferas econômicas.

Convém assinalar, ainda, que os professores universitários precisam ser preparados para as particularidades do ensino a distância, com o fito de adequarem as aulas a esse processo. Nesse contexto, ganha voz a concepção de Rousseau, filósofo contratualista, na obra “Do Contrato Social”. Conforme o pensador, a ordem e o bem-estar social devem ser assegurados pelo Estado, ou seja, há uma ruptura do contrato social, já que o corpo docente das universidades não é preparado para o EAD, o que gera a baixa qualidade das aulas. Essa conjunção de fatores revela um cenário de descaso governamental com essa atividade, que causa a manutenção da ineficiência da educação a distância.

Diante dos argumentos supracitados, é necessário concentrar esforços em reverter o quadro da baixa qualidade do ensino a distância no Brasil. A priori, cabe ao Ministério da Economia facilitar o acesso aos equipamentos digitais necessários para o EAD, a partir de empréstimos econômicos para os estudantes universitários, com o fito de promover a inclusão dos alunos de baixa renda no processo. De modo complementar, o Ministério da Educação deve preparar o corpo docente universitário para a prática da educação a distância, por meio de cursos gratuitos de capacitação para essa atividade nas universidades, a fim de melhorar a qualidade das aulas. Promovidas essas ações, espera-se melhorar o cenário de letargia, da sociedade moderna, abordado no livro de Saramago.