Debate sobre a relação das startups e a geração de Millennials
Enviada em 21/06/2020
A geração dos Millennials é certamente aquela em que se nota uma preferência pelo uso da tecnologia e uma busca pela flexibilidade no local de trabalho. Em busca de aliar flexibilidade e produtividade, surgiu com isso um novo movimento de relaxamento de leis trabalhistas e que assim tanto deu a flexibilidade pretendida, quanto reduziu a certeza da sobrevivência de seus colaboradores. Nesse contexto, a Uber e o iFood são símbolos dessa dinâmica e, apesar da revolução que delas adveio, essa flexibilização de regras trabalhistas e a mera intermediação pelas plataformas pode piorar e muito a vida dos que dependem delas para sua subsistência.
Outro processo que sucede essa nova geração é a mudança nas formas de consumo, afinal os Millennials não buscam consumir tão somente produtos de baixo custo e fácil acesso, mas aqueles que refletem seus próprios valores. Assim, produtos ambiental e socialmente responsáveis ganham uma projeção cada vez maior, mesmo que eles acabem sendo consideravelmente mais caros. À vista disso, percebemos também que os Millennials desejam continuamente um emprego que não só lhes permita viver dignamente, mas que seja compatível com seus valores. Dessa forma, o consumismo voraz pode se transformar em um consumo pautado em valores e aceitação social.
Assim, muitos deixam de consumir carne (ou fingem que deixam) para participar de círculos sociais compostos por indivíduos preocupados com as condições dos animais em abatedouros. Contudo, isso impacta na criação de uma sociedade falsa e narcísica - que supostamente acredita que salvará o mundo de condutas exploratórias, enquanto utiliza um iPhone proveniente do trabalho análogo à escravidão chinês. O mesmo vale para aqueles que fazem pedidos pelo iFood com entrega realizada de bicicleta e ainda reclamam da espera, sendo que por outro lado se dizem defensores do proletariado. Assim, a geração que se beneficia das facilidades proporcionadas pelas startups é a mesma que aponta o dedo para as distorções provocadas pelas novas relações de trabalho.
Não obstante, há que se reconhecer o mérito que os Millennials têm em gerar novas formas de produzir e aumentar a comodidade dos hábitos diários com suas startups. Porém, a questão do narcisismo crescente e a pauperização do trabalho pelas plataformas são questões prementes nessa nova realidade que se interpõe. Isto posto, cabe ao poder legislativo nas esferas federal, estadual e municipal discutir políticas públicas que venham a atenuar os efeitos dessa precarização, como, por exemplo, a responsabilização das plataformas em um eventual acidente com o entregador, sem que se alegue isenção de responsabilidade. Já o narcisismo depende mais de uma mudança cultural advinda tanto do contexto familiar quanto das discussões presentes especialmente no meio acadêmico.