Debate sobre o aumento dos casos de violência doméstica durante a quarentena
Enviada em 24/07/2020
“Basta uma crise política, econômica ou social para que os direitos das mulheres sejam questionados”. A fala da existencialista francesa Simone de Beauvoir, apesar de remeter ao século XX, evidencia a pandemia de violência vivenciada atualmente por múltiplas mulheres. Nesse sentido, a figura feminina torna-se ainda mais vulnerável em situações de crise humanitária, como guerras, epidemias e desastres naturais. Assim, as assimetrias de gênero são potencializadas devido à cultura patriarcal que naturaliza relações de poder. bem como pelo aumento da impunidade do agressor.
Diante desse panorama, é válido analisar a historiografia e o papel da mulher em situações de calamidade. Nesse âmbito, as mulheres desempenharam uma função importante na Comuna de Paris, em 1871. Da mesma forma, o corpo de profissionais de saúde que enfrenta a pandemia, formado majoritariamente por mulheres, exerce um papel imprescindível. Entretanto, o aumento de sua relevância no tecido social é paralelo à acentuação da hostilidade, o que exprime a desigualdade de gênero também nesse campo.
Ainda, os riscos e inseguranças que assolam as cidadãs se tornam mais explícitos, alicerçados nas interrupções de serviços de acolhimento e apoio psicossocial. Sob esse viés, a antropóloga argentina Rita Segato afirma que a humanidade vivencia um momento de inovações na forma de vitimar os corpos femininos, uma crueldade que se difunde e se expande sem contenção. Isso é perceptível no momento atual, em que o isolamento, um recurso para proteção da população, transforma-se em um pesadelo para as mulheres que são obrigadas a conviver com o seu agressor diuturnamente.
Portanto, é preciso mitigar as desigualdades de gênero, sobretudo em momentos de calamidade, e considerar o caráter social da doença. Em primeira instância, é dever do Estado, como responsável pelo bem-estar de seus cidadãos, implementar e cumprir medidas protetivas para a mulher, a partir de campanhas massivas nos principais meios de comunicação, bem como oferecer suporte psicológico e social para sua cidadãs, a fim de garantir a humanidade dessas mulheres. Ainda, urge que a União não permita a paralisação ou restrição de serviços no que tange a proteção da mulher, tendo em vista a criticidade que assola o país. Por fim, o pensamento beauvouiriano seria atenuado e as mulheres brasileiras seriam devidamente amparadas.