Debate sobre o aumento dos casos de violência doméstica durante a quarentena
Enviada em 04/08/2020
O surgimento da pandemia do novo coronavírus resultou em mudanças no jeito de se viver por todo o mundo, tornando-se necessário que as pessoas ficassem em isolamento em suas casas para diminuir o contágio da doença. Contudo, o grave momento de estresse pelo qual o mundo está passando atrelado à intensificação da convivência familiar, têm resultado em um aumento no número de casos de violência doméstica no país. Esses abusos não são frutos da quarentena em si, já que ela apenas contribui para o aumento de tensões dentro do ambiente doméstico, e sim da violência que está enraizada na sociedade brasileira.
De acordo com o filósofo Michel Foucault, toda relação social implica relações de poder, sejam elas profissionais, afetivas ou familiares. Ou seja, existe um indivíduo detentor de poder em relação aos demais em quaisquer ambientes. No âmbito familiar o detentor de poder se caracteriza na maioria das vezes pelo pai, e na ausência deste pela mãe. Os abusos domésticos ocorrem quando se utiliza desse poder para violentar o sujeito inferior à ele, seja de maneira física ou verbal, no caso o pai estaria se aproveitando da inocência e impotência infantil para agredir seu filho. É muito difícil para a criança reportar à alguém que foi violentada, não só pelo fato de o abusador exercer um papel familiar que deveria estar garantido sua proteção, mas também por que ela nem sempre se da conta do que ocorreu ou se sentir culpada pelo ocorrido. A ausência dessas crianças na escola devido ao momento de isolamento torna ainda mais difícil que esses casos sejam reportados às autoridades, porém aumenta suas ocorrências dentro de casa.
Abusos de poder em relações familiares por parte dos pais não são a única forma de violência doméstica no Brasil, tendo em vista que são muitos os casos de agressões de filhos contra pais. Em uma pesquisa feita pelo Sistema de Informação de Agravos de Notificação, em 2012 cerca de 4289 casos de violência de filhos contra pais foram registrados. Nesses casos, a agressão ocorre majoritariamente quando os pais são idosos e, consequentemente, mais vulneráveis e dependentes de seus filhos, para mais durante uma pandemia em que fazem parte do maior grupo de risco.
Em conclusão, pode-se afirmar que a quarentena apenas desmascarou e intensificou um problema já enraizado na sociedade brasileira. É preciso lutar contra a violência doméstica, principalmente em tempos que o convívio familiar se mostra tão intenso. É necessário a instrução dos professores para se mostrarem seguros em receber denúncias de alunos e tomarem as devidas atitudes, além de ensiná-los de maneira pedagógica o que é abuso, e os governos devem fiscalizar as casas em que idosos são cuidados para se certificar que não estão sofrendo algum tipo de violência.