Debate sobre o aumento dos casos de violência doméstica durante a quarentena

Enviada em 30/08/2020

Nos últimos tempos, com a pandemia do novo coronavírus e as medidas de isolamento social a fim de contê-lo, observa-se que, embora o movimento feminista tenha feito progresso em relação ao sexismo no Brasil, a presença de estressores sociais tem gerado o aumento do número de casos de violência doméstica no país, desafiando a sensação generalizada de progresso. Fatores como a permanência da dependência financeira de mulheres em relação a homens e a dificuldade destes em trabalhar seus sentimentos de forma aberta gera debate: afinal, por que essa elevação tem ocorrido?

Primeiramente, a fim de melhor compreender tal fenômeno, é preciso entender o que suscita esse aumento. Sabe-se que, em períodos de crise social, problemas estruturais velados são subitamente expostos por inseguranças conjunturais. Assim, a Covid-19 destrói a ilusão de progresso e mostra o real avanço em relação à desigualdade de gênero no país. A exemplo disso, dados indicam que mulheres não só estão mais expostas à informalidade que homens, quanto são as maiores vítimas de desemprego e de demissões durante a pandemia devido ao baque sentido pelo terciário, que emprega a maior parte de trabalhadoras do país, e à sobrecarga de afazeres domésticos que prejudicam o desempenho feminino durante o “home-office”. Essa dependência financeira silencia vítimas de violência devido à vulnerabilidade a qual estarão expostas caso denunciem o agressor.

Além disso, há também a questão da masculinidade tóxica que, em casos extremos, pode se manifestar na forma de truculência. A coerção social exercida sobre homens para se adequarem a comportamentos “masculinos” resulta na expectativa de que eles sejam provedores financeiros de sua família. Com isso, a possibilidade de adoecer ou de falir cria um estado de tensão constante que somado à impotência causada pela quarentena e pelo desemprego desequilibram a saúde mental de homens que sofrem em silêncio por medo do estigma. Essa supressão de sentimentos considerados “femininos” e, portanto, inferiores, por vezes, culminam em atos violentos como forma de extravasar essa energia nervosa e restabelecer controle sobre sua própria masculinidade por meio da misoginia.

Dessarte, a fim de mitigar o problema mencionado, é crucial fornecer suporte tanto a mulheres quanto a homens em situação de insegurança financeira. Assim, é preciso que o Estado, responsável pela contenção da pandemia, por meio de suas plataformas virtuais, forneça cursos práticos para que mulheres vulneráveis consigam criar uma renda alternativa e facilite o acesso à terapia por videochamada para que homens consigam trabalhar seus sentimentos sem julgamento. Desta forma, pode-se reduzir, à curto prazo, a possibilidade de atos truculentos durante o isolamento social e, com isso, esperar uma redução no número de casos durante esse período tão conturbado.