Debate sobre o aumento dos casos de violência doméstica durante a quarentena

Enviada em 18/09/2020

É evidente que o isolamento social imposto pela pandemia da COVID-19 traz à tona, de forma potencializada, alguns indicadores preocupantes sobre a violência doméstica e a violência familiar contra a mulher. As organizações voltadas ao enfrentamento da violência doméstica já observaram aumento da violência doméstica por causa da coexistência forçada, do estresse econômico e de temores sobre o coronavírus.

Segundo a Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos (ONDH), entre os dias 1 e 25 de março, mês da mulher, houve crescimento de 18% no número de denúncias registradas pelos serviços Disque 100 e Ligue 180. Também segundo a ONDH, revela-se que 88,8% dos feminicídios denunciados foram praticados por companheiros ou ex-companheiros. Assim, é comum que as mulheres estejam expostas ao perigo enquanto são obrigadas a se recolherem ao ambiente doméstico na presença daqueles que mais tem potencial para serem seus agressores

No isolamento, com maior frequência, as mulheres são vigiadas e impedidas de conversar com familiares e amigos, o que amplia a margem de ação para a manipulação psicológica. O controle das finanças domésticas também se torna mais acirrado, com a presença mais próxima do homem em um ambiente que é mais comumente dominado pela mulher. A perspectiva da perda de poder masculino fere diretamente a figura do macho provedor, servindo de gatilho para comportamentos violentos. Para contornar essas dificuldades e acolher as denúncias de violência doméstica e familiar, vários sites  lançaram canais de atendimento para mulheres em situação de violência.

Contudo, o enfrentamento à violência contra a mulher no contexto da pandemia não pode se restringir ao acolhimento das denúncias. Esforços devem ser direcionados para o aumento das equipes nas linhas diretas de prevenção e resposta à violência, e também para a ampla divulgação dos serviços disponíveis, a capacitação dos trabalhadores da saúde para identificar situações de risco, de modo que não as faça voltar para o isolamento doméstico nessas situações, e a expansão e o fortalecimento das redes de apoio. O Estado e a sociedade devem ser mobilizados para garantir às mulheres brasileiras o direito a viver sem violência.