Debate sobre o aumento dos casos de violência doméstica durante a quarentena
Enviada em 09/11/2020
O domínio do machismo sob a mulher quarentenada
Na telenovela “A Regra do Jogo”, da Rede Globo, é retratada, em um dos núcleos principais, a jornada de Domingas, uma moça constantemente violentada pelo esposo. Nesse sentido, a trama foca nas humilhações sofridas pela mulher que, durante um dos episódios, foi estrangulada pelo marido, tendo a vida salva pelos vizinhos que atenderam aos pedidos de socorro feitos por ela. Fora da ficção, é fato que a realidade apresentada pela novela pode ser relacionada ao Brasil atual: agravados durante a quarentena, os casos de violência doméstica vêm ganhando o cenário nacional. Sendo assim, faz-se mister compreender o machismo na conjuntura do isolamento social como propulsor dessa barbaridade.
Em primeiro plano, a maior liberdade feminil perturba o pensamento misógino de parte da população. Diante disso, cita-se Simone de Beauvoir, a qual afirma que gênero não é algo natural, mas uma construção social. Logo, a filósofa expõe que essa classificação se constitui apenas quando a sociedade impõe a um grupo padrões e comportamentos a serem adotados por ele. Dessa forma, o sexo feminino, taxado como inferior e subordinado ao longo da História, afronta os padrões machistas ao desfrutar dos direitos alcançados com a recente luta feminista. Por conseguinte, uma parcela dos homens sente-se ameaçada por esse livre arbítrio da mulher e atenta contra a integridade feminina.
Sob esse prisma, é perceptível que a quarentena cinge as oportunidades de as moças denunciarem esses agressores. Nesse contexto, há Foucault, o qual atesta que o medo é internalizado por intermédio da constante vigilância sob um ser. Assim, em consonância com as ideias do filósofo, muitas vítimas sujeitam-se ao domínio do agressor, durante o isolamento, por estarem sob a incessante tutela desses criminosos. Dessarte, o distanciamento social limita a busca feminina por proteção, já que favorece a normalização do poder masculino e restringe as possibilidades de solicitação de ajuda por parte das mulheres, que agora estão sob custódia contínua dos companheiros.
Portanto, medidas hão de ser tomadas, a fim de conter os aumentos dos casos de violência doméstica durante a quarentena. Primeiramente, a Secretaria Nacional de Justiça deve desenvolver métodos mais acessíveis às vítimas desse período, como destaca a campanha “Sinal Vermelho”. Isso será possível por meio da parceria com municípios e aproximará as Delegacias da Mulher à população feminina ameaçada. Ademais, a Secretaria Nacional da Mulher, a partir da cooperação com a mídia, precisa reforçar ações que despertem o senso crítico popular acerca da necessidade de combater a misoginia, como propõe o ato “Respect Women”. Desse modo, garantir-se-á uma vida mais segura e distante daquela de “A Regra do Jogo”.