Debate sobre o aumento dos casos de violência doméstica durante a quarentena
Enviada em 03/12/2020
Aluísio Azevedo, um escritor naturalista extremamente importante para a literatura brasileira, em uma de suas obras mais famosas, ‘‘O Cortiço’’, faz uma narração sobre os conflitos enfrentados por uma comunidade do século XIX, deixando evidente, por meio dos abusos psicológicos e físicos de João Romão sobre Bertoleza, que a violência contra a mulher era algo muito comum. Apesar dos diversos avanços conquistados pela sociedade, a violência de gênero, infelizmente, ainda se faz presente nos dias atuais. Sabendo disso, é importante destacar que os casos violência doméstica, que já eram um grande problema, têm sido cada vez mais recorrentes com cenário de pandemia -onde o covid-19 assola a humanidade- e, para ampliar o problema, as notificações desses casos é ainda mais precária.
Primeiramente, é válido ressaltar que o isolamento social, exigido pela pandemia, deixou o convívio mais estreito dentro dos núcleos familiares, propiciando situações de violência de gênero. Nesse sentido, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em São Paulo houve um aumento de 45% dos socorros prestados às mulheres que sofreram com a violência doméstica. Isso acontece porque, com a quarentena, sucedeu-se uma preocupação de contrair a doença, de perder um familiar ou o emprego,causando maiores tensões que, quando misturadas com álcool ou algum distúrbio psicológico, acaba desencadeando em agressão. Sendo assim, fica nítido que o estresse e aumento do convívio familiar trazidos pela pandemia servem de estímulo pra que alguns homens, previamente afetados por problemas psicológicos e impulsionados por uma sociedade machista, pratiquem atos de violência.
Paralelamente, pode-se dizer que, apesar do aumento no atendimento de mulheres vítimas de violência, as notificações no ‘‘disque 180’’ não sofreram muitas variações. Nesse contexto, o patriarcalismo que fundamentava toda a sociedade colonial possui muita influência na atualidade, por conta disso grande parte das pessoas julgam e até mesmo culpam uma mulher que sofreu algum tipo de violência, impedindo que muitas denúncias sejam feitas e dificultando o trabalho da justiça. Apesar das inúmera dificuldades ‘’normais’’, o quadro de pandemia também entrava esse processo, visto que a mulher está sendo constantemente ‘‘vigiada’’ pelo seu agressor.
Em virtude dos fatos mencionados, fica nítido que a pandemia intensificou os problemas já existentes em relação à violência doméstica, isto é, os casos se ampliaram e a notificação ficou ainda mais duvidosa. Com isso, é necessário que a população, por meio de uma lei de iniciativa popular - assinada por 1% do eleitorado brasileiro, assim como exigido no artigo 61 da Constituição-, solicite que todas as redes sociais disponibilizem uma ferramenta que incentive e de instruções sobre como denunciar uma violência doméstica para minimizar os impactos da quarentena nesse setor.