Debate sobre o aumento dos casos de violência doméstica durante a quarentena

Enviada em 17/06/2021

Segundo o filósofo alemão Gottfried Leibniz, “O universo que Deus fez existir é o melhor de todos os mundos possíveis”. Em contraste com a visão otimista de Leibniz, porém, está a realidade de milhares de mulheres que sofrem diariamente com o abuso doméstico, crime que se intensificou durante a quarentena. Para estas mulheres, este mundo se tornou ainda mais distante do melhor dos mundos possíveis. Fica evidente, portanto, o grave problema que é o aumento da violência doméstica, que tem suas raízes na construção tóxica da masculinidade e na falta de assistência estatal às vítimas.

Em primeiro lugar, a construção histórica da masculinidade sob uma ótica patriarcal é uma ameaça natural à segurança das mulheres. De acordo com a escritora francesa Simone de Beauvoir, as instituições sociais modernas desempenham uma função de opressão do sexo feminino. De fato, ao construir um ideal do homem como indivíduo necessariamente dominante e agressivo, a sociedade perpetua a problemática da violência, condenando a mulher e protegendo o agressor. Devido às medidas de distanciamento social adotadas no período de pandemia, casais aumentaram sua convivência diária, o que também aumentou a exposição feminina a esse ideal nocivo de masculinidade. Sob essa perspectiva, fica clara a influência da construção social da identidade masculina sobre o aumento da violência doméstica na quarentena.

Ademais, o Estado não fornece o apoio necessário às vítimas desse problema. Tal fato fica evidente na dificuldade de impedir e denunciar esse crime, devido à falta de uma estrutura adequada para lidar com a situação. Na visão do filósofo americano John Rawls, que defende que o governo deve garantir que mesmo àqueles na pior situação não faltem direitos básicos, a persistência dessa problemática é uma falha do governo. De certo, como mostram os dados da Polícia Militar de que houve um aumento de 44,9% nos atendimentos a vítimas de violência no período da quarentena, o Estado está faltando com sua função. Desse modo, fica evidente que a falta de apoio estatal é parte do problema.

Fica explícita, portanto, a necessidade de intervenção para combater o aumento dos casos de violência doméstica durante a quarentena. Para isso, deve o Ministério da Justiça facilitar a denúncia de ocorrências desse crime. Isso deve ser feito através da criação de um atendimento por mensagens de texto que permita às vítimas se comunicar com a polícia sem o conhecimento do agressor, de modo a permitir que as acusações sejam eficientes e seguras. Outrossim, deve o Ministério da Cidadania, em parceria com veículos de mídia, promover uma campanha de conscientização por meio de anúncios televisivos e palestras em escolas, de modo a desconstruir o ideal nocivo de masculinidade. Por fim, será possível alcançar um mundo um pouco mais próximo do que idealizou Leibniz.