Debate sobre o aumento dos casos de violência doméstica durante a quarentena
Enviada em 03/08/2021
Entre 1918 e 1919, a gripe espanhola foi uma pandemia que dizimou 50 milhões de pessoas. Passadas algumas décadas, uma nova doença atingiu todos os continentes e demonstrou que diversos desafios deveriam ser enfrentados. Um deles foi ocasionado pelo isolamento social, pois as famílias se viram obrigadas a conviver mais intensamente. Dessa forma, os casos de violência doméstica se elevaram e, com isso, surgiu a importância de refletir sobre os efeitos do machismo e a negligência do poder público em focar na raiz do problema.
A priori, cabe destacar que o elevado número de casos de violência doméstica, durante a pandemia, desmascarou a lógica patriarcal que, de alguma maneira, ronda as relações familiares. Nesse sentido, o levantamento do Datafolha indicou que uma a cada quatro mulheres foi vítima de alguma violência no decurso do isolamento social. Esse dado aponta que o sexo feminino ainda sofre distorções, na medida em que o agressor o toma como um corpo frágil e submisso e, por isso, passível de ser violado. Nessa perspectiva, o feminino ainda é tratado da mesma forma que no período colonial: como uma propriedade do marido. Assim, o patriarcalismo, em algumas relações, ainda persiste, podendo facilitar a ocorrência de agressões.
Além disso, apesar dos diversos avanços e conquistas no que se refere à proteção da mulher, o aumento dos casos de violência doméstica desmascarou as falhas do poder público no efetivo combate desses atos hostis. Sob uma óptica sociológica, a proeminente filósofa brasileira Marilena Chaui asseverou que as pessoas agem conforme a cultura vigente. Nessa lógica, torna-se imprescindível a construção de políticas que desconstrua a visão de que existe um sexo frágil, marcado por uma passividade e submissão. Esse olhar estruturante forma as pessoas e pode facilitar manifestações agressivas e, portanto, a perpetuação de tais pensamentos e atos.
Torna-se evidente, portanto, a necessidade de formular medidas que combata o machismo enraizado na cultura brasileira. Para tanto, o Ministério da Educação deve criar estratégias para incluir a discussão sobre violência doméstica nas escolas, com o objetivo de fazer com que os estudantes adquiram posicionamentos críticos quanto a assuntos relacionados ao patriarcalismo, machismo e seus efeitos na cultura. Isso pode ser realizado por meio de debates e discussões amistosas em sala de aula. Somado a isso, pode-se convidar profissionais que refletem sobre o tema para ajudar nessas conversas. Assim, será possível vislumbrar mudanças efetivas na redução da violência doméstica.