Debate sobre o aumento dos casos de violência doméstica durante a quarentena
Enviada em 06/03/2022
O quadro expressionista “O grito”, do pintor norueguês Edvard Munch, retrata a inquietude, o medo e a desesperança refletidos no semblante de um personagem envolto por uma atmosfera de profunda desolação. Para além da obra, observa-se que, na conjuntura brasileira contemporânea, o sentimento de milhares de mulheres assolados pela violência doméstica durante a quarentena é, amiudadamente, semelhante ao ilustrado pelo artista. Nesse viés, torna-se crucial analisar as causas desse revés, dentre as de ordem social e governamental.
A princípio, é imperioso notar que o desleixo da sociedade potencializou esse aumento violência de gênero na quarentena. Posto isso, a filósofa alemã Hannah Arendt, em seu conceito de “Banalidade do Mal”, reflete sobre o processo de massificação da população, o qual formou indivíduos alienados que ignoram problemas que atingem grupos minoritários. Nessa perspectiva, percebe-se que os cidadãos se omitem em tais situações, pois acreditam que não concerne à eles ajudar a combater tais absurdos. Tal fato, com o distanciamento social da pandemia, é mais agravado, porque as mulheres que já não eram ajudadas, ficam mais distantes ainda de um possível apoio externo.
Outrossim, é fulcrar apontar a indiligência estatal como outro fator para a perpetuação do problema. Esse contexto de inoperância das esferas de poder exemplifica a teoria das Instituições Zumbis, do sociólogo Zygmunt Bauman, que as descreve como presentes na sociedade, todavia, sem cumprirem sua função social com eficácia. Sob essa ótica, devido à baixa atuação das autoridades, os parceiros que cometem essas transgressões muitas vezes saem impunes, dessa forma, são incentivados a continuarem a cometerem as agressões.
Depreende-se, portanto, que medidas capazes de mitigar a problemática são essenciais. Dessarte, o Estado, na condição de garantidor dos direitos individuais, deve, através das delegacias, fiscalizar melhor esses crimes, a fim penalizar adequadamente os transgressores. Paralelamente, cabe a mídia, conscientizar a população acerca da importância de assistir as mulheres, para que essas sintam-se mais seguras. Espera-se, assim, que os sofrimentos emocionais retratados por Munch delimitem-se apenas ao plano artístico.