Debate sobre o complexo do “branco salvador”
Enviada em 24/07/2023
No século XVI, popularizou-se nas ocupações portuguesas as chamadas: missões jesuíticas, que promovidas pela Igreja Católica, buscavam levar, junto à salvação cristã, modos civilizatórios aos considerados retrógrados nativos que no Brasil viviam. O complexo do “branco salvador” se sofisticou e, de modo hodierno, se reproduz nas redes sociais, mídias tradicionais e veículos de imprensa. Diante disso, cabe discutir o papel ofuscador e de retrocesso que essas iniciativas têm sobre a realidade dura das vítimas e a busca para solução desses problemas.
Em primeira análise, as ditas “ações humanitárias” pela mídia internacional distorcem a compreensão dos motivos reais que desencadearam a situação de escassez e pobreza daquelas comunidades. A divulgação da realidade vivida por esses povos é feita do ponto de vista eurocentrista filantropo, que é imediatamente entendido pelos veículos de comunicação e mídia global como agente de missão civilizatória. Assim sendo, atrela-se a situação tétrica vivida por essas populações à falta de instrução, conhecimento e a um modo de vida “primitivo” passível de evolução. Com efeito, reproduz-se o caso de Angola que teve sua miséria associada pelos veículos de imprensa americanos a sua organização política vigente e não aos longos anos de colonialismo português.
Em segunda análise, essas iniciativas de filantropia salvadora não rompem com o problema, pelo contrário, contribuem para sua perpetuação. Consoante ao pensador Silvio Almeida, ministro da Cultura, não é que não hajam meios para reparação, estes não são praticados por ter menos repercussão. Ao divulgar imagens de corpos fragilizados para o mundo, a repercussão não se dá apenas sobre a narrativa construída pelo interlocutor branco, mas sobre sua própria figura. Por conseguinte, exalta-se empreendimentos de efeito paliativo e não soluções concretas.
Destarte, frente ao que fora discutido, nota-se a necessidade de medidas de intervenção afim de sanar os problemas do complexo do “branco salvador”. Para lidar com as soluçoes reais urge que as ONGs responsáveis pela ajuda humanitária evitem a proliferação de imagens apelativas e de cunho publicitário por meio da proibição da circulação desses materias nos campos de atuação. Como consequência, há de se diminuir esse fenômeno, e assim, combater o mito histórico do branco civilizador, branco salvador.