Debate sobre os impactos da pandemia na educação brasileira

Enviada em 15/10/2020

Em um de seus mais importantes livros, “Pedagogia do Oprimido”, Paulo Freire, patrono da educação brasileira, enfatiza o pensamento crítico, obtido a partir de uma educação qualificada, como a única forma de libertação e emancipação do indivíduo. Entretanto, se o acesso à educação, no Brasil, sempre possuiu um caráter desigual, com o advento da pandemia do coronavírus, esse cenário tende a ficar ainda pior, em virtude da desigualdade digital existente no país, o qual impossibilita que todos os estudantes tenham iguais condições de darem continuidade aos estudos.

A priori, é importante destacar que, de acordo com o IPEA, 58% das classes “c” e “d” não possuem acesso à internet, o que representa, conforme dados da UNICEF, a 3,5 milhões de estudantes. Nesse sentido, a continuidade do ano letivo por meio da adoção de aulas remotas pelas escolas brasileiras não se mostra eficiente em virtude da desigualdade digital que permeia a sociedade tupiniquim. Além disso, também é imperioso salientar o despreparo dos profissionais da educação na lida com as aulas online. Isso porque, de acordo com o Instituto Península, organização social que atua nas áreas de educação e esporte, 90% desses profissionais nunca ensinaram em plataformas digitais e nem foram treinados para isso.

Nesse conjuntura, os números relativos aos jovens que abandonam os estudos tendem a crescer, haja vista que, em meio à pandemia, muitos deles precisam trabalhar para ajudar nas despesas familiares ou não possuem os aparatos necessários à adaptação ao novo cenário educacional, que pressupõe a posse de dispositivos eletrônicos e acesso à redes. Consequentemente, segundo dados do Conselho Nacional de Juventude, 28% dos estudantes pesam em abandonar os estudos. Logo, a desigualdade social presente no Brasil tende a se intensificar, pois sem educação, a ascensão social é quase impossível.

Portanto, medidas devem ser tomadas para a reversão desse imbróglio. Para isso, o Ministério da Educação, em parceria com os Governos Estaduais, mediante um maior repasse de verbas por parte da União, deve estender o oferecimento do acesso à internet às comunidades carentes e às zonas rurais dos respectivos estados, além de estipular aulas virtuais cujo servidor se adapte ao acesso por smartphones, tendo em vista que este é o principal meio de acesso dos brasileiros à internet, com o fito de possibilitar que o maior número possível de alunos continue estudando. Ademais, deve ser ofertado pelo MEC, cursos preparatórios destinados aos profissionais da rede pública de ensino que os mantenham informados e capacitados para o ensino remoto. Assim, será possível emancipar a população por intermédio da educação, conforme ilustrou o Paulo Freire.