Debate sobre os impactos da pandemia na educação brasileira

Enviada em 24/11/2020

Em sua obra “Utopia”, Thomas More discorre sobre uma sociedade ideal e os meios para alcançá-la, dentre eles, a possibilidade de ensino universal e irrestrito a todos. Decerto, a obra do filósofo inglês vai de encontro às experiências de muitos alunos durante a pandemia de 2020, que viram suas experiências sociais reduzidas, além da ascensão da disparidade entre instituições privadas e públicas, resultando em impactos negativos para o desenvolvimento dos cidadãos brasileiros.

Em primeira análise, pontua-se sobre o papel da escola na formação social do indivíduo e em como a quarentena ocasionou a ruptura desse fenômeno. Ao analisar pelo olhar do sociólogo Émile Durkheim, o qual idealiza sobre como as associações escolares permitem o compartilhamento de ideias e vivências — necessárias para a formação humana — entre seus membros, fica claro que a imposição de um modelo de contingência ao vírus baseado na suspensão da maior parte das atividades educacionais cumpre exatamente o papel contrário. Ou seja, ao impedir o contato entre estudantes (de quaisquer idades), há também o impedimento de seu pleno desenvolvimento como ser social, isto é, as convenções padrões da sociedade civilizada não são completamente experienciadas, resultando em um cidadão que desconhece os paradigmas essenciais para a vida em grupo.

Além do desenvolvimento incompleto do entendimento social, a pandemia de COVID-19 escancarou a disparidade de acesso entre estudantes da rede pública e privada. Segundo dados do portal G1, o “Plano São Paulo” — estipulado pelo governador João Dória para a extinção gradual da quarentena obrigatória — permitiu a abertura das instituições particulares de ensino muito antes das públicas, assim como em outros estados da federação, como o caso do Pará, resultando em melhores condições de estudo e avanço do conteúdo programático apenas para a parcela da sociedade que usufrui de condições financeiras avantajadas, restando aos integrantes da rede pública a permanência no ensino remoto (quando possível), e a espera pelo retorno às atividades presenciais.  Dessa maneira, evidencia-se como a priorização do ensino particular faz avançar o abismo existente entre as instituições federais, estaduais ou municipais e as privadas.

Em suma, observa-se que a pandemia resultou numa supressão do contato social e no avanço das diferenças entre o ensino gratuito e o pago. Assim, o Ministério da Educação e Cultura (MEC), órgão responsável pela organização educacional no país, deve promover eventos com o encontro de diversos grupos que permitam a sociabilidade dos estudantes logo ao fim da pandemia, além de expandir a política de cotas nas universidades, buscando incluir alunos da rede pública que foram prejudicados no quesito educacional, para que, então, a realidade de Thomas Mores se torne a realidade do Brasil.