Debate sobre os impactos da pandemia na educação brasileira

Enviada em 27/12/2020

Em seu livro “Ensaio sobre a Cegueira”, o português José Saramago desenvolve a narrativa de uma epidemia de “cegueira branca”, a qual atingiu a todas as classes sociais de uma cidade fictícia de forma igualitária. Saindo do aspecto literário, percebe-se que, no que tange à pandemia do coronavírus, os impactos dessa problemática, principalmente na educação brasileira, estão longe de afetar a todos igualmente. Sendo assim, torna-se premente uma análise criteriosa acerca dos motivos pelos quais se dá esse triste quadro do ensino brasileiro durante a pandemia, bem como dos seus efeitos para o cenário nacional.

Deve-se pontuar, de início, que tal problemática advém, em muito, da precária organização de um plano educacional de emergência pelo governo brasileiro. Isso porque, ao tomar como base o pensamento do geógrafo Josué de Castro, para quem “Falta vontade política para mobilizar recursos a favor dos mais necessitados”, é possível perceber que, devido a falta de planejamento governamental, no que diz respeito à promoção do ensino remoto de qualidade para todos, muitos estudantes foram submetidos a um terrível descaso com a sua formação educacional. Assim, é lastimável notar que um país, que proclamou a sua República há mais de 100 anos, não se comporta como uma nação que gera recursos para o povo, mas sim para satisfazer aqueles que, segundo o poeta Gregório de Matos “não sabem governar a sua cozinha, mas podem governar o mundo inteiro.”

Outrossim, é imprescindível ressaltar a acentuação da desigualdade social como efeito dessa crise educacional brasileira. Isso ocorre, pois, é fato que, em pleno século XXI, a educação constitui-se como principal meio de ascensão social, contudo, muitos brasileiros, por não disporem de um acesso de qualidade a tal realidade, encontram-se num ciclo semelhante ao da canção “A cidade”, do grupo Nação Zumbi, em que " o de cima sobe e o de baixo desce". Prova disso pode ser vista em relatório divulgado pela ONU, no qual o Brasil ocupa a posição de segundo país com a maior concentração de renda no mundo.

Portanto, urge ao Ministério da Educação, em sinergia com as Secretarias Educacionais, desenvolver projetos de promoção do ensino remoto de qualidade. Essa ação deve ser feita por meio da construção de um horário de aulas, organizado por professores e pedagogos, o qual deve ser transmitido não só em canais abertos de televisão, mas também em espaços públicos, como teatros e praças municipais, mediante a utilização de telões, e o respeito às políticas de distaciamento social, com o fito de que os estudantes desfrutem de uma educação equitativa. A partir disso, a pandemia não atingirá a todos de forma tão desigual, e o cenário de Saramago não estará restrito à ficção.