Deficit habitacional no Brasil

Enviada em 28/08/2020

Em meados do século XX, o artista plástico Cândido Portinari retratou, na obra “Os retirantes”, uma família que sai de uma região à outra em busca de melhores condições de vida. Semelhante ao cenário evidenciado pelo autor, muitos brasileiros protagonizam, hodiernamente, uma peregrinação em busca de mínimas condições habitacionais. As demandas para findar o deficit habitacional no Brasil, no entanto, são deturpadas devido à inobservância governamental e à desigualdade causada pela estratificação social.

A princípio, a negligência do Estado é um fator relevante quando se observa o significativo número de famílias que vivenciam a inadequação de suas moradias. Nicolau Maquiavel, em “O Príncipe”, afirma que um governante tende a tomar decisões estratégicas que mantenham sua posição de liderança. Tendo isso em vista, é esperado que o investimento das autoridades em projetos que propiciem qualidade habitacional para os menos favorecidos seja negligenciado em detrimento de pautas mais populistas, que garantem mais votos. Logo, a manutenção do poder de muitos gestores no Brasil ocorre às custas de 7,78 milhões de unidades habitacionais precárias, segundo associação parceira da Fundação Getúlio Vargas.

Outrossim, é importante ressaltar que um grupo social que é limitado de receber seus direitos plenos de moradia representa um retrocesso no desenvolvimento coletivo. Consoante o conceito de “Capital cultural”, de Pierre Bourdieu, nossas práticas e condições são acessadas majoritariamente por camadas mais elevadas da sociedade, o que contribui para a distinção de classes. Dessarte, com seu direito à habitação ferido, a qualidade de vida proporcionada por um ambiente saudável de moradia fica inacessível à parcela da população mais vulnerável. Assim, ao terem sua garantia habitacional afetada, o progresso social de muitos brasileiros é impedido.

Em vista desses fatos, é indubitável que medidas são essenciais para reverter a situação. Primeiramente, cabe ao Governo, por intermédio de projetos, investir em programas habitacionais planejados para a população mais vulnerável, para que a desigualdade promovida pela falta de infraestrutura básica no Brasil deixe de existir e todos possam vencer o deficit habitacional. Ademais, cabe aos cidadãos, por meio de manifestações pacíficas e sugestões de projetos de lei, cobrar e pressionar os governantes a resolver o impasse, para que todos possam se sensibilizar a ajudar os que possuem menos voz. Desse modo, será possível que as obras de Portinari não transmitam, ainda hoje, o Brasil do século XX.