Desafios da polícia de fronteira no Brasil
Enviada em 21/06/2020
Na série Narcos da Netflix é retratado o poder absurdo e a capilaridade do tráfico de drogas dos cartéis colombianos e o complexo sistema de integração de traficantes em diversos países, inclusive no Brasil. Para além da ficção, tal problemática se apresenta na realidade como inúmeros desafios para as polícias de fronteira, em especial no Brasil, cujas dimensões continentais refletem-se em uma guerra sem fim travada nas nossas fronteiras, protagonizada por um efetivo policial nunca suficiente.
O Brasil faz fronteira com os três maiores produtores de cocaína do mundo, sem falar das outras drogas e o contrabando de mercadorias e cigarros, este último pouco comentado, mas cujo tráfico também goza de muita lucratividade. Mesmo com todo o empenho das corporações e da Receita Federal, ainda é humanamente impossível competir com a criatividade a quantidade de traficantes e contrabandistas. Ocorre que os desafios no policiamento de fronteira não passam somente pelo quantitativo dos agentes públicos, mas também pela falta de ações práticas, em especial nos setores de inteligência e integração entre as corporações.
O fortalecimento dessas atividades resultaria em uma maior velocidade de troca de informações entre corporações e órgãos públicos por meio de sistemas integrados e compartilhamento de bancos de dados. Ou seja, facilitaria desde a identificação de suspeitos a medidas preventivas e métodos de policiamento. Porém, a implementação dessas políticas passa por limitações orçamentárias, a exemplo do último concurso público da Polícia Federal, que teve o efetivo de vagas dobrado. No entanto, os mil novos policiais federais recém contratados ainda não foram suficientes para suprir, nas atuais condições, uma demanda tão complexa.
Em seu livro “As Vaias Abertas da América Latina”, Eduardo Galeano diz logo nas primeiras páginas que “alguns países nascem para perder”. Não por acaso, é na América Latina que o tráfico de drogas movimenta mais pessoas, que vêem no crime uma oportunidade em meio a uma vida difícil. Decerto, a questão da fronteira é um problema de grande complexidade, que na verdade é um dos muitos sintomas que remontam a inúmeras vertentes, desde a nossa cultura de consumo, até ao método de colonização e exploração não só no Brasil, como em toda a América Latina.
Nesse sentido, deve o Ministério da Justiça não só fortalecer ainda mais a integração entre os órgãos de polícia e de fiscalização, investindo em tecnologia como informatização, câmeras e drones, como também é preciso investir em ações educativas, buscando parcerias com a iniciativa privada, a fim de informar a população, bem como construir novas oportunidades que desestimulem o crime. A solução do problema seria então pavimentada de forma sustentável, melhorando toda a sociedade no caminho.