Desafios do combate à obesidade infantil
Enviada em 12/09/2019
Segundo o sociólogo Pierre Bourdieu, ainda que cada sujeito possua sua própria individualidade, esta se entrelaça no contexto social dos diversos grupos e instituições das quais participa. Ao considerar esse olhar como ponto de partida para a discussão acerca os desafios do combate à obesidade, é nítida a influência dos diversos atores sociais na construção dessa problemática. Nesse cenário, torna-se pontual não apenas questionar como o contexto mercadológico e publicitário da indústria alimentícia possibilita a existência do problema, mas também analisar seus impactos no organismo social.
Em primeira observação, cabe compreender o papel agressivo das redes alimentícias no incentivo ao excesso no consumo, como linhas de alimentos próprias para crianças, porém, de baixo valor nutricional. Atesta-se, assim, a ideia de Bourdieu, na medida em que esse ramo industrial se apresenta como forte influenciador das peculiaridades sociais. Vale salientar a influência exacerbada dessas instituições sobre a construção de práticas alimentares precursoras da obesidade que, sendo um período determinante para a construção de hábitos, dificulta a futura reversão desse quadro ao seduzí-los nesse período de fragilidade, como já mencionado por José Saramago, em sua “falsa democracia”, há uma ilusão de livre escolha, enquanto estas seriam regidas pelo mercado. É evidente, pois, a necessidade da intervenção estatal nesse quesito midiático, na tentativa de diminuir a influência das indústrias alimentícias sobre a construção e consolidação da obesidade.
Paralelamente à questão institucional, outro ponto relevante, nesse cenário, é como o contexto pós-moderno dificulta o combate ao tema. Nessa perspectiva, confirma-se a ótica de Zygmunt Bauman, pois, em sua obra “O mal-estar na pós-modernidade”, o pensador advoga que o indivíduo contemporâneo age de maneira irracional por ser vitimado pela cegueira moral. Isso significa que a sociedade não alerta seus indivíduos para reconhecerem a obesidade infantil como a consolidação da inserção de práticas não saudáveis desde a primeira infância, demonstrando a incapacidade social de combater o problema. Observa-se, dessa maneira, a necessidade da reestipulação de hábitos e de valores sociais para tornar a sociedade capaz de ser parte ativa no combate à obesidade.
Haja vista as problemáticas decorrentes dos desafios no combate à obesidade infantil, é mister a implantação de medidas para detê-as. A princípio, é fundamental que o Ministério da Justiça crie leis que atenuem e controlem o papel midiático na influência de crianças a adotarem certos hábitos, como por meio da criação de órgãos específicos que multem e, em casos mais graves, retirem de circulação essas propagandas, afastando a determinação midiática na construção de hábitos nas crianças. Ademais, cabe ao Ministério da Educação o fomento a práticas alimentares saudáveis, por meio da inclusão dessa nas grades curriculares que, ao serem implantadas desde a primeira infância, promovam uma conscientização acerca dos riscos da obesidade de forma lúdica e palpável às crianças. Com essas iniciativas, espera-se que o entrelaçar entre os agrupamentos sociais, como proposto por Bourdieu, possa conduzir a relações mais humanizadas.