Desafios do processo de alfabetização em questão no Brasil
Enviada em 23/12/2020
Na obra “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, o personagem Fabiano, morador do sertão nordestino, é descrito como ignorante e rude, chegando até a comparar sua própria imagem a de um animal irracional, graças a sua falta de habilidade com palavras ocasionada pelo analfabetismo. Fora da ficção, é fato que a realidade apresentada por Graciliano pode ser relacionada ao Brasil do século XXI: a ausência de infraestrutura e medidas públicas corroboram para o aumento de analfabetos no país, o que gera, por consequência, a perpetuação de uma sociedade desigual e com poucos cidadãos aptos a desempenhar funções que exigam esforço intelectual.
Em primeira análise, deve-se ressaltar a ausência de democratização quanto o acesso às escolas no Brasil. Historicamente, com a chegada da família real ao Rio de Janeiro em 1808, a colônia passou por uma série de transformações urbanas com a finalidade de abrigar a coroa portuguesa. Nessa perspectiva, o processo primário de urbanização do Brasil teve um caráter elitista, de modo que a infraestrutura, desde o seu período colonial, se concentrasse apenas em regiões habitadas pela parte abastada da população. Atualmente, tal dinâmica segracionista não se altera, já que em áreas rurais e periféricas o acesso aos estabelecimentos de ensino é limitado, o que cria, por consequinte, um cenário favorável ao abandono e desinteresse na conclusão dos estudos. Em síntese, a taxa de evasão escolar entre os jovens periféricos é oito vezes maior que os de classe média alta, segundo uma pesquisa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
Ademais, de forma consecutiva a evasão escolar por dificuldades geográficas, a baixa escolaridade de pais e responsáveis é outro fator que impulsiona o analfabetismo no Brasil, eternizando o ciclo da pobreza por meio de barreiras socioculturais. Dessa forma, crianças e adolescentes necessitam de orientação e suporte familiar para serem sucedidas nos estudos, contudo, tal prerrogativa não é uma realidade para todos, especialmente para indivíduos em situação de risco. Nessa perspectiva, dados do Censo Demográfico de 2010, apontam que enquanto 39,4% das crianças de até três anos de famílias ou pais com ensino superior estão matriculadas em escolas, apenas 18,4% daqueles que os reponsáveis não estudaram ou não concluíram o ensino fundamental frequentam creches.
Portando, de acordo com as informações citadas, fazem-se necessária políticas que possam evitar o agravamento dessa realidade. Logo, cabe ao Estado maior atenção a distribuição de escolas por território, focando principalmente na construção de centros de ensino em regiões culturalmente mais carentes como o norte e nordeste. Além disso, com campanhas, por meio do Ministério da Educação, é preciso incentivar a leitura e escrita entre a população adulta mais pobre.