Desafios do processo de alfabetização em questão no Brasil

Enviada em 15/01/2021

Em meados do século passado, o escritor austríaco Stefan Zweig mudou-se para o Brasil devido à perseguição nazista que ocorria na Europa. Bem recebido e impressionado com o potencial do país, Zweig escreveu um livro cujo título é até hoje repetido: ‘‘Brasil, país do futuro’’. Entretanto, quando se observar os diversos desafios referentes ao processo de alfabetização no país, percebe-se que a profecia não saiu do papel. Nesse contexto, cabe destacar as disparidades socioeconômicas e as deficiências estatais como propulsores para a problemática.

É correto afirmar, de início, que as desigualdades sociais existentes no país impedem que parcela significativa da população seja alfabetizada. De fato, devido a adversidades econômicas, muitos jovens recorrem precocemente ao trabalho, em busca de fornecer ou complementar a fonte de renda da família. Com efeito, em um cenário em que o trabalho é visto como forma de sobrevivência e supressão de necessidades básicas, esse obtém importância superior à conferida aos estudos, fato que afasta diversos indivíduos do ambientes escolar desde cedo e impede que o letramento aconteça. Dessa forma, o combate ao analfabetismo significa, em última instância, o combate à miséria e à extrema pobreza ainda persistentes em território nacional.

Ademais, cabe destacar o descaso governamental como outro fator responsável pela persistência do analfabetismo no Brasil. De acordo com Norberto Bobbio, a dignidade é uma qualidade intrínseca ao homem, capaz de lhe dar direito ao respeito e à consideração por parte do Estado. Sob tal ótica, a alfabetização seria uma forma de o governo demonstrar apreço por seus cidadãos. No entanto, os elevados índices de analfabetismo existentes no país, especialmente em locais marginalizados e distantes das políticas públicas - a exemplo de comunidades e regiões do interior, demonstram que nem todos são agraciados com a consideração estatal. Assim, ao restringir a dignidade a uma parcela da população, o Estado age contrariamente ao proposto pelo filósofo italiano.

Torna-se, evidente, portanto, que o problema é grave e não pode ser ignorado. Diante disso, cabe ao Ministério da Cidadania - órgão responsável por promover assistência social à população - , em parceria com os governos estaduais, promover ações que visem mitigar a pobreza a qual milhões de brasileiros estão submetidos, por meio da criação de uma renda básica mensal destinada a famílias carentes, a fim de que, sanadas as necessidades básicas, os indivíduos possam voltar sua atenção à escola e alcançarem a alfabetização. Paralelo a isso, é imprescindível que o Ministério da Educação desenvolva programas de monitoração dos níveis de alfabetização no país. Espera-se, com isso, que a profecia de Zweig possa se tornar realidade em um futuro próximo.