Desafios do processo de alfabetização em questão no Brasil

Enviada em 03/01/2021

O livro “1984”, de George Orwell, retrata um país governado por um regime autoritário que, por meio do seu contraditório Ministério da Verdade, elimina palavras e expressões de materiais escritos, buscando limitar a liberdade de pensamento dos seus governados. Fora da narrativa, no Brasil, verifica-se que parte da população é analfabeta, completa ou funcionalmente. Assim, esses cidadãos têm a sua liberdade política e econômica limitada de modo análogo à obra distópica, enquanto persistem falhas de gestão estatais que retardam o questionamento e a solução dos desafios ligados ao problema.

Em primeiro lugar, observa-se que o analfabetismo, funcional ou não, representa uma ameaça à liberdade política e econômica do indivíduo. Conforme Richard Leakey, biopaleontólogo, todo conhecimento é adquirido e manuseado nos teares da linguagem. Desse modo, infere-se que possuir uma habilidade linguística limitada conduz a um sufocamento da capacidade de interpretação e aprendizagem do cidadão em qualquer contexto informacional. Com isso, é fácil deduzir que um analfabeto terá dificuldades para conhecer e reivindicar seus direitos, bem como para dominar alguma área do saber. Isso o levará, por sua vez, a um estado de vulnerabilidade frente à manipulação política - tal como visto em “1984” - , e à uma exclusão laboral e socioeconômica.

Ademais, verifica-se que, apesar de existirem programas estatais de combate ao analfabetismo,a gestão pública da educação brasileira apresenta falhas que perpetuam a problemática. De acordo com o deputado Arthur do Val (DEM), o Brasil ainda deixa de direcionar mais recursos à educação básica para fomentar o ensino superior público. Nesse contexto, obtêm-se um sistema de ensino fundamental com fragilidades na infraestrutura e no capital humano, evidenciadas, por exemplo, pela falta de materiais didáticos e de docentes, respectivamente. Logo, formam-se, continuamente, jovens com a alfabetização prejudicada, os quais serão futuramente afetados pela vulnerabilidade política e socioeconômica citadas e perpetuarão o problema no país.

Portanto, urge que o Ministério da Educação, em parceria com o Senado Federal, redirecione a maioria dos recursos financeiros do setor educacional para o ensino fundamental público. Essa ação deverá ser implementada mediante uma lei que será votada pelo poder legislativo, sendo que ela deve, ainda, incluir um cronograma de avaliações nacionais para levantar os resultados da política educacional. Essas provas deverão ser aplicadas trimestralmente, objetivando uma análise estatística  anual sólida e ágil. Com essa medida, será possível obter o efeito ligado à formação de jovens com menores taxas de falhas na alfabetização, o que, a longo prazo, proporcionará a construção de um povo com maiores chances de ser livre social e economicamente.