Desafios do processo de alfabetização em questão no Brasil
Enviada em 13/01/2021
Ray Bradbury, em “Fahrenheit 451”, retratou a proibição dos livros em uma sociedade fictícia como mecanismo de manipulação dos habitantes. Para além dessas páginas, a alienação desvelada pelo escritor norte-americano ecoa com precisão no grave cenário de analfabetismo no Brasil, materializada nos danos à criticidade dos iletrados, que representam trinta por cento da população segundo dados do Indicador de Alfabetismo Funcional. Com efeito, o processo de alfabetização encontra desafios governamentais e educacionais para sua efetivação.
Em um primeiro plano, a ineficácia estatal faz-se um empecilho para o letramento no país. Essa correlação pode ser explicitada pela secundarização de pautas voltadas ao ensino pelo Estado, o qual frequentemente prioriza interesses dos grupos de poder, o que impede o envio adequado de verbas para a concretização do combate ao analfabetismo e para a melhoria da infraestrutura das escolas. Nesse sentido, o descaso da máquina pública com os analfabetos se relaciona à percepção de Simon Schwartzman, em “Bases do Autoritarismo Brasileiro”, na medida em que exemplifica a sobreposição de demandas privadas sobre públicas apontada pelo sociólogo. Dessa forma, a negligência governamental, ao precarizar o investimento educacional, fomenta a evasão escolar anterior à alfabetização efetiva.
Ademais, o sistema brasileiro de educação apresenta falhas pedagógicas que alicerçam a persistência do analfabetismo. Isso porque tal modelo mostra-se insuficiente na garantia do aprendizado básico pelo estudante, uma vez que se distancia da realidade do aluno ao massificar o conteúdo sem se vincular ao seu contexto social, o que dificulta a internalização de matérias como o alfabeto. Nessa perspectiva, a ineficiência escolar na alfabetização afronta o conceito de “Escola Asa” proposto por Rubem Alves, em que o ensino deveria transformar o horizonte social dos discentes. Desse modo, a insuficiência do método de aprendizagem viola seu papel revolucionário afirmado pelo educador, e prejudica a formação crítica dos brasileiros ao perpetuar o iletramento.
A displicência do Poder Público e a omissão pedagógica, portanto, consubstanciam os entraves para o processo de alfabetização. À vista disso, o Poder Executivo Federal deve promover o reordenamento operacional do modelo de educação. Essa medida precisa ser concretizada por meio da modernização infraestrutural e técnica de suas instituições, a qual garanta a capacitação de profissionais para a alfabetização e o desenvolvimento de materiais didáticos mais eficazes relativos a essa prática, com a finalidade de minimizar os acentuados níveis de analfabetismo no Brasil. Dessa maneira, o panorama alienado descrito por Ray Bradbury não será mais uma realidade empírica para a nação.