Desafios do processo de alfabetização em questão no Brasil

Enviada em 24/10/2024

Carolina Maria de Jesus, em seu livro “Quarto de Despejo”, considera a escrita como sua única salvação em meio à crueldade da fome e da vida na favela. Em con-sonância com a percepção da autora, o poder da palavra é discutido desde a filoso-fia clássica, como meio fundamental para o exercício da cidadania. Apesar dessas evidências, entretanto, a alfabetização de crianças e adultos continua a ser um de-safio no Brasil, por falta de políticas públicas que sejam capazes de atingir de forma igualitária a todas as camadas da sociedade.

De acordo com a última edição da pesquisa Alfabetiza Brasil, apenas 4 em cada 10 crianças brasileiras no 2º ano do ensino fundamental estavam alfabetizadas em 2021. A estatística está muito aquem do estabelecido pelo ODS 4 e pelo Pacto Na-cional pela Alfabetização na Idade Certa, em vigor desde 2013, mas ainda longe de atingir o objetivo de ter 100% das crianças alfabetizadas na idade correta.

Por outro lado, a taxa de alfabetização de adultos no Brasil, conforme o Censo Demográfico, subiu de 74,5% em 1980, para 93% em 2022. Apesar do avanço, per-manecem acentuadas as desigualdades regionais: dos mais de 11 milhões de brasi-leiros analfabetos na idade adulta, a maior parte se concentra nas regiões Norte e Nordeste. Assim, fica evidente que o problema do analfabetismo no Brasil tem sido continuamente negligenciado e tratado com políticas ineficazes.

Portanto, medidas efetivas são necessárias para solucionar esse problema his-tórico. Cabe ao Ministério da Educação, apoiado por outros órgãos e pela socieda-de civil, desenvolver políticas públicas amplas, que considerem as desigualdades regionais. Pode-se, por exemplo, ampliar a oferta de educação infantil em tempo integral nas escolas públicas em todos os estados brasileiros, com ações direciona-das principalmente às crianças de famílias carentes. Já para a educação de jovens e adultos, é importante aumentar o número de escolas com oferta dos níveis de alfa-betização adulta, principalmente nas regiões Norte e Nordeste, além de promover campanhas publicitárias que objetivem desestigmatizar a EJA e eliminar os precon-ceitos que impedem a busca pela educação tardia. Com essas medidas, finalmente há de se alcançar a promoção da dignidade e da cidadania plena, garantindo a to-dos a emancipação por meio da leitura e da escrita.