Desafios na saúde pública: como lidar com epidemias no Brasil?
Enviada em 29/06/2020
Em sua obra Ensaio Sobre a Cegueira, o autor José Saramago retrata o colapso de uma sociedade ao ser acometida por uma epidemia de “cegueira branca”. Apenas uma personagem mostra-se capaz de enxergar, cabendo a ela a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam. Fora da ficção, é fato que a realidade brasileira se assemelha ao exposto por Saramago em mais de um aspecto: não somente nas constantes ondas de doenças infecciosas que assolam a população, como também na cegueira moral que acomete os governantes, tornando-os incapazes de ver a raiz dos problemas e tomar medidas eficazes.
Em primeira análise, é importante destacar que epidemias, juntamente com a falta de eficácia do Estado em lidar com elas, fazem parte da história do Brasil. Destaca-se a Revolta da Vacina, em que medidas tomadas pelo médico sanitarista Oswaldo Cruz para conter um surto de varíola no Rio de Janeiro acabaram levando a um motim popular. A falta de informação do povo, unido ao caráter autoritário das ações governamentais tomadas foram tão culpadas pelas vidas perdidas quanto fatores mais óbvios como falta de infraestrutura e higiene nas cidades.
Entretanto, outro exemplo histórico mostra que quando as entidades responsáveis mostram-se dispostas a compreender a realidade social de uma epidemia, o controle é altamente eficaz. A distribuição gratuita de coqueteis para soropositivos, juntamente com campanhas para conscientização de grupos de risco, tornou o SUS (Sistema Único de Saúde) referência mundial para o controle da AIDS utilizando aparelhamento estatal, segundo a Organização Mundial da Saúde.
Portanto, é mister que o Estado tome providências para melhorar o quadro atual. Para que exista um controle das doenças infecciosas em território nacional, urge que as Secretarias Municipais de Saúde criem postos de atendimento à população focados em coletar dados sobre suas condições específicas de vida, sendo então capazes de aplicar as medidas profiláticas e terapêuticas adequadas. Somente ao dar olhos aos governantes pode-se dar fim à mãe de todas as epidemias: a cegueira das elites quanto às condições de vida de grupos marginalizados.