Desafios no combate ao abuso sexual infantil no Brasil

Enviada em 07/12/2020

Sob as perspectivas de Pierre Bourdieu, a violência simbólica é aquela cujas marcas vão muito além da violência física propriamente dita, aquela, é uma dor interior, sem cicatrizes externas. Seguindo tal pensamento, o abuso sexual infantil se configura em uma das esferas da violência simbólica, visto que as crianças ficam marcadas para sempre sem, necessariamente, possuírem uma maca externa. Nessa égide, tal fator desencadeia-se, seja pela negligência das instituições ou pelo silenciamento populacional. Por tais motivos, subterfúgios devem ser encontrados para transpor a problemática.

Torna-se imprescindível analisar, precipuamente, que o acompanhamento escolar, em consonância com o acompanhamento familiar, no que tange às prevenções do abuso infantil, é fundamental. Contudo, as instituições escolares negligenciam tal papel, uma vez que transferem essa responsabilidade educacional  às famílias, as quais, por sua vez, redirecionam a responsabilidade às escolas, fechando um ciclo inerte e sem valor educativo. Nesse âmbito, os criminosos se aproveitam da vulnerabilidade infantil, bem como da falta de conhecimento das vítimas para cometerem os atos imperdoáveis de abuso. Consoante a Francis Bacon, é preciso criar oportunidades e não somente transformá-las. Em contrapartida, o que se vê é o descaso das instituições em engendrar oportunidades que viabilizem uma mudança. Dessa maneira, mudar tal situação é um fato obrigatório.

Faz-se mister refletir, ainda, que muitas crianças que são vítimas do abuso sexual sentem-se envergonhadas e, por vezes, sentem medo de serem submetidas a tal violação novamente. Nesse sentido, essas vítimas se calam e não procuram ajuda, o que dificulta a identificação dos criminosos e o combate ao crime. Parafraseando Habermas, a linguagem é a mais eficaz forma de comunicação, tal alicerce conduz o homem a grandes feitos. Diante dessa análise, percebe-se a importância da fala no cenário atual como forma de denúncia, bem como uma forma de garantir justiça para vítimas de crime. Todavia, nos tempos hodiernos, muitas pessoas ainda preferem se calar, acreditando que é a melhor forma de evitar uma segunda vez. Entretanto, enquanto mudanças não forem tomadas e os criminosos não forem presos, nunca se atingirá a segurança e nem, tampouco, o progresso.

Sob a visão de Oscar Wilde, a não aceitação da realidade é o primeiro passo para uma mudança. Portanto, urge uma parceria entre as escolas e as famílias, efetuando a inserção da educação preventiva aos abusos sexuais em currículo escolar, por meio de debates ou peças teatrais, que se utilizem do lúdico para mostrar a importância da comunicação e da denúncia no processo de identificação dos criminosos, e ainda, mostrem maneiras de prevenir tal situação, tendo os pais como plateia, com o fito de gerar o diálogo em casa e impedir as marcas simbólicas do abuso sexual.