Desafios no combate ao abuso sexual infantil no Brasil
Enviada em 13/12/2020
No dia 18 de maio de 1973, uma garota de oito anos foi encontrada morta com traços de violência sexual no corpo. Por causa desse ocorrido, a data foi escolhida como o Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. No entanto, apesar dos avanços realizados para mitigar esse problema a partir desse dia fatídico, obstáculos como as raízes históricas conservadoras brasileiras e a insuficiente atuação estatal e familiar fazem com que esse tipo de violência persista no Brasil.
Em primeiro plano, destaca-se a forte influência das heranças históricas do país na formação de um contexto que favorece o surgimento de práticas sexuais abusivas contra as crianças. Nesse sentido, desde os primórdios da colonização, o Brasil teve forte influência dos dogmas conservadores católicos, os quais tratavam a sexualidade como um assunto que devia ser evitado em conversas públicas. Dessa forma, gerou-se uma sociedade que pouco discute esse tema em espaços como a escola e o lar, dificultando a formação de jovens com a devida educação sexual. Logo, é evidente que uma enorme quantidade de crianças passam sua infância sem conhecer o próprio corpo, quais são seus direitos sobre ele e o que caracteriza uma agressão a essas garantias legais, tornando-as vulnéraveis à violência sexual.
Ademais, vale ressaltar que o Estado e as famílias atuam de maneira pouco eficiente na prevenção do problema. Conforme dito por Albertina Duarte, ginecologista do Programa Saúde do Adolescente em São Paulo, há poucas políticas públicas que coordenam a ação estatal e familiar para que o silêncio sobre a sexualidade e a violência sexual infantil seja quebrado. Esse apontamento é comprovado quando nota-se que, segundo o Ministério da Saúde, o número de casos de abuso cresceu 83% entre 2011 e 2017. Desse modo, confirma-se que há a urgência de articular os familiares com ações do poder público para que as crianças do país sejam protegidas dessas agressões.
Portanto, é preciso que o Ministério da Saúde, em parceria com o Ministério da Educação e com as famílias, atue fomentando o diálogo sobre sexualidade e violência sexual infantil. Essa ação será realizada por meio de palestras em centros de eventos públicos que reúnam professores, profissionais de saúde, pais e filhos para discutirem sobre a importância de conhecer o próprio corpo, o que configura um abuso, quais são os canais de denúncia e como acolher uma vítima desse tipo de violência. Com essa medida, será possível obter uma conscientização geral dos atores sociais envolvidos no problema, o que favorecerá a resposta ágil às situações de agressão e reduzirá o número de casos similares ao ocorrido em 1973.