Desafios no combate ao abuso sexual infantil no Brasil

Enviada em 18/01/2021

O documentário intitulado como “Um Crime Entre Nós”, dirigido por Adriana Yañez, expõe a violação sexual infantil no Brasil, em que crianças são induzidas ou forçadas a realizar atos sexuais com adultos. Nesse âmbito, percebe-se que a problemática da exploração sexual de crianças enfrenta obstáculos para ser debatida, visto que ainda é frequentemente naturalizada na sociedade brasileira e, em consequência, os infantes são erroneamente culpabilizados pela violência que sofreram.

Em primeira análise, verifica-se que há a normalização dos abusos contra crianças ao invés de se lutar contra essa prática. Ainda no documentário “Um Crime Entre Nós”, apesar de alguns entrevistados relatarem a presença de meninas realizando favores sexuais, não houve a denúncia ao conselho tutelar, justificado pela descrença na justiça. Assim, pressupõe-se certa cumplicidade em relação ao crime, já que impede-se o debate acerca do tema - devido a essa naturalização - e a incriminação dos abusadores.

Consequentemente, o comportamento repercute na culpabilização das crianças pelos assédios que sofreram. No livro “Lolita”, escrito pelo russo Vladimir Nabokov, o adulto Humbert relata que Lolita - uma criança - era sensual e insinuante, em uma falha tentativa de justificar a sua pedofilia. De modo análogo, verifica-se que a ideia de acusar a vítima do crime sexual como culpada ainda é muito presente no pensamento popular, dificultando possíveis denúncias e a progressão da justiça.

É urgente, portanto, que o quadro da violência sexual infantil retratado no documentário seja revertido. Para isso, as escolas devem fornecer aulas de educação sexual desde os anos iniciais de escolarização, ministradas em conjunto por professores de biologia e sociologia, que promovam a identificação de um abuso pela própria criança - fazendo-a discernir entre carinho e assédio sexual - e o suporte à vítima de tais assédios quando relatados. Com essas medidas, facilita-se a devida ação da justiça e rompem-se os tabus para combater tal violência.