Desafios no combate ao abuso sexual infantil no Brasil
Enviada em 18/02/2021
No filme “O quarto de Jack”, o diretor Lenny Abrahamson tenta demonstrar a trajetória de uma mulher que foi sequestrada ainda criança e violentada por anos em um cativeiro. Durante esse tempo, ela engravidou do agressor e a narrativa se volta para a interação filho e mãe. A partir disso, assim como retratado no filme, o abuso sexual infantil é uma realidade de diversas crianças e adolescentes no Brasil, independente da ordem social. Dessa forma, para uma discussão mais completa do assunto, é preciso, primeiramente, entender os impactos dessa violência na vida dos indivíduos e investigar o ambiente mais comum de ocorrência, isto é, no âmbito familiar.
A Psicologia do Desenvolvimento é o estudo científico do como e do porquê os seres humanos se desenvolvem ao longo da vida. Assim sendo, essa ciência se atenta aos diversos aspectos que possam influenciar, tanto positivamente quanto negativamente, o processo de desenvolvimento dos indivíduos. Diante disso, um indivíduo acometido por violência sexual nas fases iniciais de aprendizagem (infância e adolescência) pode estar submetido a diversos impactos na sua vida interacional, como traumas e, inclusive, ciclos de ódio.
Nesse sentido, o psicólogo Lev Vygotsky, importante teórico da abordagem Histórico-Cultural, apontava a importância do meio social harmônico e suas interações positivas para o desenvolvimento dos indivíduos. Portanto, considerando o boletim epidemiológico 27, do Ministério da Saúde, no qual diz que 69,2% dos casos de violências sexuais ocorrem na própria residência da criança, percebe-se que parte desses acontecimentos acontecem no meio social primário dos indivíduos violentados, ou seja, com agressores conhecidos. Dessa forma, ao estar inserido num ambiente desfavorável, acometido por violência e abuso, a história de vida dessas crianças podem estar comprometidas devido aos impactos gerados.
A partir do exposto, fica evidente a importância de desenvolver medidas que ajudem a combater essa situação. Assim sendo, além de ações que foquem no pós-denúncia, é preciso investir em intervenções preventivas, por exemplo, o Ministério da Educação poderia desenvolver campanhas de conscientização dos pais e, principalmente, das crianças e dos adolescentes, visando construir um entendimento positivo sobre o assunto e, assim, por meio de ações educacionais, incentivar a denúncia. Junto a isso, no pós-denúncia, para além da punição do violentador, o Ministério da Saúde, com apoio dos Centros Municipais, devem desenvolver métodos de acolhimento mais eficazes das vítimas, com o intuito de amenizar os impactos traumáticos gerados diante da violência ocorrida.