Desafios no combate ao abuso sexual infantil no Brasil
Enviada em 09/04/2021
Na obra “O Cidadão de Papel”, Gilberto Dimenstein alega que, muitas vezes, os cidadãos têm direitos garantidos por leis, mas na prática isto não acontece. Sob essa perspectiva, nota-se que, apesar de existir uma lei do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) que assegura a proteção dos infantes contra abusos sexuais, este tipo de violência torna-se cada vez mais recorrente. Nesse sentido, percebe-se que ainda existem inúmeros desafios no combate ao abuso sexual infantil no Brasil. Cabe-se entender, portanto, de que maneira a erotização infantil e a subnotificação dos casos de estupro às autoridades coadunam-se no agravamento desta problemática.
Em primeiro lugar, é válido destacar que as crianças são sexualizadas desde muito novas, por meio de maquiagens exageradas, roupas sensuais e danças eróticas, que são muito comuns no meio midiático. Exemplo disso, é a cantora mirim MC Melody, que desde a infância foi extremamente sexualizada pelo pai e, consequentemente, por outros homens também. Saliente-se ainda que, conforme o psicólogo Jean Piaget, existem quatro etapas do desenvolvimento infantil e, quando alguma dessas etapas é acelerada, ocorre um desdobramento de prejuízos que afetam o indivíduo a longo prazo. Dessa forma, fica explícito que a “adultização” precoce é muito problemática, pois contribui para o desaparecimento da infância e a persistência da cultura do estupro, já que aumenta os casos de assédio e pedofilia.
Outrossim, é necessário pontuar que a grande maioria dos casos de abuso sexual infantil não são notificados às autoridades, o que faz aumentar a sua recorrência, já que o abusador não sofre as punições necessárias. Isto posto, denota-se que a subnotificação ocorre por diversos motivos, dentre eles: o tabu relacionado à violência sexual, além da vulnerabilidade física, social e psicológica das crianças, fator que as tornam vítimas fáceis. Ademais, em sua obra “Totem e Tabu”, Sigmund Freud, pai da Psicanálise, analisa que os tabus são proibições de origem incerta, que cerceiam as liberdades individuais e coletivas de uma sociedade. Logo, é essencial quebrar o tabu relacionado ao abuso sexual, para que não haja medo ou vergonha de denunciar a violência, além de reduzir os casos de desinformação, tornando mais fácil a identificação do abuso.
Portanto, é preciso que medidas sejam tomadas para reduzir o indíce de abuso sexual infantil no Brasil. Assim, faz-se necessário que o Ministério da Família, Mulher e Direitos Humanos, em parceria com Ministério da Educação, promova campanhas de incentivo a denúncia, além de Educação Sexual nas escolas. Para que isso ocorra, as campanhas devem ser feitas por meio de inserções publicitárias, bem como palestras e treinamentos para pais e professores, com temáticas relacionadas à desconstrução e crítica à sexualização precoce.