Desafios no combate ao abuso sexual infantil no Brasil
Enviada em 26/05/2021
Liberdade, respeito e dignidade são direitos previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). No entanto, é fato que a violência sexual infantil é recorrente nos bastidores de grande parte das casas brasileiras, onde não há um protagonismo explícito, senão cortinas que jamais serão abertas. Nesse sentido, o constrangimento de tal atrocidade gera a omissão da denúncia do agressor aos tutores e em consequência; o desenvolvimento de transtornos psíquicos e de comportamento.
É importante pontuar, de inicio, que a boa estrutura familiar é essencial ao ser, pois é no âmbito doméstico que a criança recebe as primeiras noções do bem e da verdade, aprende a amar e ser amado. Conforme Boletim Epidemiológico 27, do Ministério da Saúde, 38% dos casos de estupros não foram notificados, o que demonstra um valor alto, se somado às subnotificações. Portanto, os laços de confiança adquiridos no lar são fundamentais para que a perversidade não invada vidas como a de Jude, que escondeu uma das maiores dores da ficção, escrito por Hanya Yanagihara, autora de “Uma Vida Pequena”, após uma série de estupros, em sua infância, que acarretaram em uma intensa falta de confiança ao próximo e omissão de crimes por toda a vida, pois não teve o apoio dos pais.
Por consequência, uma cadeia de problemas é gerada na conduta e vida adulta dos que sofrem tamanho infortúnio na infância, segundo o que Paulo Dalgalarrondo, doutor em psiquiatria, afirma através de diversos estudos. Ademais, de acordo com estudo levantado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância, o pico dos abusos contra meninas ocorre aos 13 anos e contra meninos, mais cedo, entre 4 e 5 anos. Dessa forma, doenças como o transtorno de identidade e pedofilia, por exemplo, além de outros descritos na Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento (CID), são resultantes da desumanidade que não fica apenas no imaginário de um escritor, mas no mundo real.
Em suma, não é possível generalizar ou delimitar de forma perfeita os efeitos da violação sexual em crianças, dadas as particularidades dos indivíduos e as experiências vivenciadas pelas vítimas. Por isso, é crucial que o profissional que venha a deparar-se com tais situações tenha a sensibilidade necessária e a responsabilidade no enfrentamento à situação de extremo desafio e complexidade, por meio do acompanhamento clínico àqueles que chegam a um diagnóstico, a fim de amenizar os prejuízos causados nesse cenário. Com essa postura, abrir-se-ão as cortinas para uma infância saudável, que em nenhum momento poderia ter sido ofuscado pelas arbitrariedades por parte do Estado, da família ou da sociedade.