Desafios no combate ao abuso sexual infantil no Brasil

Enviada em 18/10/2021

“O pai continua a ser o grande vilão, devorando sua própria prole.” Esse excerto do livro “Gênero, Patriarcado e Violência”, de Heleieth Saffioti, identifica o principal agressor quando o assunto é abuso sexual infantil. Nesse viés, torna-se difícil identificar e combater essa violência, visto que em situações dentro do ambiente familiar - o qual deveria ser seguro - o estuprador pode controlar a vítima para não contar a ninguém, seja por meio de ameaças, seja por justificativas que viram a culpa para a própria criança, causando traumas psicológicos graves que perduram pela vida toda.

Nesse contexto, a violência sexual é um reflexo direto do patriarcado. Segundo dados de um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), mais de 90% dos estupros são cometidos por homens, demonstrando que o machismo e o patriarcalismo - os quais demarcam as relações de poder entre homens e mulheres, colocando-as como objeto de desejo e de propriedade deles - são os principais culpados da cultura do estupro. Assim, no ambiente familiar, ainda segundos dados da IPEA, o agressor sexual de crianças mais comum é o pai ou o padrasto, que utilizam ainda mais da relação de poder, pois são homens que a vítima conhece e confia, tornando mais fácil a manipulação psicológica antes e após a agressão, como é analisado no livro de Heleieth Saffioti.

Dessa maneira, o abuso sexual infantil no Brasil é praticamente invisível, pois dificilmente a criança vai ter coragem de contar a alguém, ou, em alguns casos, a inocência da vítima a faz não saber identificar que o que o agressor está fazendo é errado. Por esses motivos, apenas na idade adulta essas mulheres que sofreram abuso na infância começam a expor o que passaram. Como aconteceu em uma entrevista do Uol que, juntamente com o Grupo de Apoio a Mulher (Gram), entrevistou duas mulheres acima de 35 anos que enfim conseguiram falar sobre o que aconteceu quando tinham menos de 12 anos e sobre os traumas advindos da infância.

Assim sendo, o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos deve promover uma campanha de combate ao machismo e ao patriarcalismo, por meio de propagandas e das redes sociais, para tentar diminuir a as demarcações de poder entre gêneros. Ademais, o Ministério da Educação deve implantar no currículo escolar a educação sexual como matéria obrigatória - sendo abordada de maneiras diferentes de acordo com a idade dos alunos - a fim de instruir as crianças e adolescentes, por meio do ensino, a identificar quando uma carícia de um parente deixa de ser algo natural e a falar para alguém que possa denunciar o problema caso aconteça, tentando, dessa forma, diminuir os dados alarmantes e combater o abuso sexual infantil no Brasil.