Desafios no combate aos crimes cibernéticos
Enviada em 24/12/2020
O conto “O enfermeiro”, de Machado de Assis, conduz a uma reflexão de como muitas vezes o ser humano engana a si próprio, ainda que involuntariamente, objetivando maquiar as intempéries interiores, como forma de mitigar o problema. Ao se falar sobre crimes cibernéticos, nota-se que entidades privadas e população como um todo preferem “fechar os olhos” pra tal caso a entender que se trata de uma problemática difusa, precisando de um olhar mais atencioso. Nesse contexto, não só a falta de investimentos de empresas de tecnologias em segurança de dados pessoais , mas também o anonimato e a rede de possibilidades dele são desafios que precisam ser notados e combatidos.
Em primeiro lugar, verifica-se que os investimentos das empresas de tecnologia são mais voltados a conexão e rapidez do que a segurança de dados. Segundo Durkheim, a sociedade é um organismo constituído por distintos setores que são os órgãos, os quais ,quando funcionam harmoniosamente, contribuem para o bem estar da tessitura social. Paralelamente, a tecnologia funciona da mesma forma: a comodidade, a conexão, a qualidade da tela e a segurança são atributos que precisam estar inclusos, ao mesmo tempo, nos aparatos tecnológicos, para que eles de fato desenvolvam suas funções. Nesse sentido, quando não há investimentos em segurança, mas apenas em inovações de aplicativos, câmeras e outras possibilidades, a tecnologia não pode cumprir seu papel pré-estabelecido que diz respeito a melhorias na qualidade de vida do ser humano, passando a ser algo mais prejudicial do que benéfico. Por conseguinte, o asseguramento de proteção de informações e dados contribui tanto para a segurança dos usuários quanto para o pleno funcionamento da tecnologia.
Outrossim, vale ressaltar o anonimato e as possibilidades desse formato na execução de crimes sem deixar rastros e sem ser visto. Para Focault, o conceito de panóptico é o de uma estrutura complexa que permite ao observador ver sem ser visto, garantindo vigilância e demonstrando, na prática, o poder que ela exerce. Paradoxalmente, no universo cibernético, ao mesmo tempo que é possível ver que alguém está cometendo crimes não é possível ver esse alguém, visto que o anonimato possibilita ao criminoso agir sem ter sua identidade revelada. Nessa perspectiva, o poder da vigilância, apresentado pelo panóptico, acaba por se anular, uma vez que a vastidão de informações e ferramentas disponíveis, somada com o anonimato, dificulta investigações de crimes na web.
Portanto, cabe ao Ministério da Ciência e Tecnologia em parceria com a mídia, criar projetos alertando a população da importância da utilização de senhas em aplicativos e contas e o não compartilhamento de informações com outrem. Da mesma forma, deve-se limitar o anonimato através de sites que não o permitam, para uma melhor transparência de investigações. Assim, a rede poderá ser mais segura.