Desafios para a conciliação da Biotecnologia e a Ética
Enviada em 12/09/2019
A série Black Mirror, em um de seus episódios, traz à tona a discussão sobre o uso polivalente da biotecnologia: em um futuro distópico, pequenos robôs, criados como alternativa para a queda da população de abelhas, são hackeados e utilizados para matar pessoas. Fora da ficção, verifica-se que, apesar de suas contribuições para o progresso da sociedade, a biotecnologia enfrenta desafios acerca de seus impactos sob o ponto de vista ético. Nesse sentido, é necessário que entraves, como a falta de informação dos cidadãos e, consequentemente, a não participação na análise dos projetos biotecnológicos, sejam superados para que o avanço da ciência esteja a favor do homem e em conformidade com a ética.
Mormente, é pertinente elencar a falta de informação dos indivíduos sobre o desenvolvimento e benefícios da biotecnologia como um perpetuador desse impasse. Segundo o IBGE, houve um aumento significativo na expectativa de vida da população brasileira nas últimas décadas e, intrinsecamente relacionado a esse fato, está a ampla variedade de tratamentos contra infecções e doenças crônicas, desenvolvidos através de técnicas de biologia aplicada. Conquanto, é lamentável que o distanciamento entre comunidade e ciência corrobore o desconhecimento e a incompreensão, de maneira pejorativa, do potencial terapêutico, produtivo e alternativo da biotecnologia.
Outrossim, a engenharia genética, área de destaque da biotecnologia moderna, impulsiona questionamentos éticos sobre a manipulação do genoma dos seres vivos, devido ao uso polivalente desse conhecimento. Seguindo essa linha de raciocínio, o filósofo Aristóteles sustenta a ideia de ética eudemonista, isto é, preocupada com o bem comum e baseada nos princípios racionais. Diante disso, infere-se a necessidade de uma análise racional e ponderada, pelos indivíduos leigos e pesquisadores, a respeito do uso dessa ciência, conciliando sua utilização para questões realmente válidas.
É imprescindível, portanto, desenvolver medidas que resolvam o impasse. Nessa perspectiva, o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações (MCTIC) deve manter a população informada sobre o avanço biotecnológico, por meio de eventos e projetos, promovidos em meio acadêmico, que aproximem a comunidade leiga e científica, a fim de que se estabeleça um pensamento crítico a partir dessas informações e haja um engajamento consciente de todos no desenvolvimento e aplicações da ciência, conforme aspectos éticos. Paralelamente, a mídia precisa garantir que a população esteja ciente de um panorama completo dos prós e contras da biotecnologia. Pretende-se, com isso, que a sociedade disponha de aparatos para uma participação ativa, ética e produtiva, visando que o uso da biotecnologia na realidade seja diferente do desfecho caótico retratado em Black Mirror.