Desafios para a conciliação da Biotecnologia e a Ética

Enviada em 25/09/2019

O Livro “Jurassic Park”, de Michael Crichton, demonstra o triunfo da engenharia genética ao recriar dinossauros e seu fracasso, por conta de fatores não previsto no DNA desses animais, o que gerou inúmeros desastres e mortes. Consequentemente, surge na obra, o paradigma dos limites morais da ciência. Não obstante, o embate entre ética e biotecnologia, no qual uma busca defender a dignidade da vida como um todo e a outra, o progresso, se faz presente na contemporaneidade. E, às vezes, em razão do próprio desenvolvimento, seus impactos e até mesmo, da ganância, são estabelecidas complexas querelas entre ambas, demandando ampla discussão em prol de harmônica conciliação.

Sob essa perspectiva, o impacto dos transgênicos- organismos geneticamente modificados- na flora e na fauna, ilustra o quanto o progresso biotecnológico ajuda, mas também afeta a vida. Por mais que ele tenha ampliado acesso à alimentação em larga escala, concomitantemente, tem gerado doenças, como câncer, além agredir a biodiversidade e as relações ecossistêmicas. Segundo estudos da Universidade de Iowa, o pólen de milho modificado pode ser mortal às borboletas da espécie Monarca. Esse animal, bem como outros insetos, também prejudicados, possui relevante papel na polinização e equilíbrio das relações interespecíficas, mantendo assim, a ordem natural de seu bioma. Logo, nesse sentido, a indústria agrícola não podem evocar a máxima de Maquiavel em que os fins justificam os meios.

Ademais, embora a alteração de genes, em maioria dos casos, tenha reta intenção em sua causa final, na história da ciência, é possível observar casos de absoluta fraude em nome do reconhecimento e do lucro. No ano de 2005, o cientista sul-coreano Woo-suk Hwang fraudou a clonagem de embriões humanos, obtendo assim, fama mundial. Somente no ano seguinte foi possível constatar a mentira, expondo, por consequência, a limitação da comunidade científica em lidar com situação desse tipo. Portanto, no que tange a seus princípios, tal episódio carrega em si dois problemas: a clonagem, que faz do ser humano um objeto manipulável e a dissimulação de informação, sendo que, acerca disso, afirma santo Tomás de Aquino, ser a comunicação da verdade o máximo bem que se faz ao próximo.

Por conseguinte, sendo o progresso displicente e a autorrealização inescrupulosa grandes desafios às relações congruentes entre ética e biotecnologia, é preciso que o Ministério da Ciência e Tecnologia, junto da comunidade científica e profissionais de diversas áreas, discutam amplamente, junto à sociedade civil, a elaboração de orientações claras e objetivas sobre práticas afins à bioengenharia, como pesquisas em humanos, por exemplo. Tal discussão deve levar em conta as legítimas intenções de pesquisadores, os objetivos industriais e, acima de tudo, a integridade de todo tipo e fase de vida. Dessarte, a sociedade logre maiores benefícios técnicos, porém mantendo o respeito a seus valores.