Desafios para a conciliação da Biotecnologia e a Ética
Enviada em 27/10/2019
O filme de ficção científica “Gattaca” retrata uma projeção da sociedade no auge da tecnologia genética. Nesse contexto, o protagonista, o qual nasceu com graves defeitos fisiológicos e cognitivos, utiliza o material genético de um personagem geneticamente perfeito, a fim de falsificar os testes seletivos para uma expedição espacial. Tal realidade, no entanto, não será restrita à ficção em breve, haja vista o exponencial avanço da biotecnologia em detrimento da ética.
Primeiramente, a interferência humana na Seleção Natural existe desde a sedentarização, por meio sobretudo da domesticação de espécies e da consequente ascensão artificial de características escolhidas pelo homem. Além disso, com a evolução dos conhecimentos acerca da biotecnologia, a intervenção do homem na natureza fez-se de maneira mais categórica. Essa conjuntura, porém, não só serviu para contradizer a teoria malthusiana – a qual afirmava que o desenvolvimento agrícola não acompanharia o crescimento populacional -, por intermédio da Revolução Verde, como também para acarretar problemas ao meio ambiente e à saúde humana, por causa do uso exacerbado de agrotóxicos e transgênicos.
Ademais, impor limites à manipulação genética é essencial para garantir a dignidade humana. Isso porque, se o avanço da biotecnologia se manter desenfreado, não será um absurdo os humanos serem substituídos por androides mais “evoluídos” geneticamente, assim como é representado no filme “Blade Runner”. Assim, apesar da ciência, no período do Renascimento, ter sido fundamental para a erradicação de mazelas como o monopólio do conhecimento pela Igreja e a peste negra, no futuro poderá gerar – paradoxalmente – injustiças análogas à Fogueira da Santa Inquisição, já que os desprovidos de melhoramento genético poderão ser considerados os próximos “hereges”.
Logo, é necessário evitar o cenário de destruição ambiental e exclusão biológica das obras de ficção científica, por meio da promoção da ética. Urge, portanto, que a ONU incite a realização de conferências internacionais entre os países mais engajados no ramo da biotecnologia, visando à discussão sobre questões bioéticas relativas aos avanços atuais e às possibilidades para o futuro, como as consequências ao meio ambiente e à vida humana – além de impor limitações explícitas com o intuito de evitar um rumo semelhante ao de “Blade Runner”. Com efeito, o ser humano poderá usufruir da tecnologia de forma responsável.