Desafios para a conciliação da Biotecnologia e a Ética

Enviada em 21/02/2020

Brincando de deus

Por volta de 15 mil anos atrás, o ser humano começou a modificar os seres vivos: a domesticação de plantas e animais selecionava, indiretamente, os melhores genes para o ambiente. Depois de muitos séculos, a ciência e a tecnologia contemporânea conseguiram desenvolver técnicas ao ponto de alterar o DNA de qualquer espécie na tela de um computador, podendo acrescentar ou deletar genes de seu interesse. Mas esse grandioso feito gerou discussões polêmicas acerca da ética no campo científico.

Atualmente a biotecnologia é capaz de promover reprodução artificial; produzir órgãos a partir de células-tronco; clonar indivíduos; desenvolver organismo transgênicos e criar vacinas. Mas o maior destaque dos últimos anos foi uma técnica usada por um cientista chinês, em 2018, na qual ele implantou, no útero de uma mulher, duas gêmeas que foram melhoradas geneticamente para serem imunes ao vírus do HIV. Esse novo método, por ser mais barato e acessível, levantou questões sobre a banalização da intervenção genética no cotidiano, capaz de permitir que as pessoas escolham as características de seus filhos como em um videogame.

Mas a verdade é que esse pensamento de “construir o próprio filho” ainda é fantasioso, pois exige conhecimentos mais complexos. No entanto, vale destacar que com as atuais técnicas, toda a alteração genética é bem vinda se for para curar doenças letais, como AIDS ou Alzheimer. Mas esse procedimento só deve ser feito quando o indivíduo já é adulto e tem noção de todos os riscos que está assumindo. Isso porque modificar embriões é remodelar o futuro de alguém sem a autorização dela, ou seja, algo muito invasivo. Além disso, devido aos riscos que as mutações genéticas podem causar, é possível que um grave problema seja passado para outras gerações através da reprodução de uma pessoa que foi modificada.

Portanto, a biotecnologia deve ser pensada para estabelecer o bem entre as pessoas e a natureza, como a cura de doenças fatais que impossibilitam uma vida normal, e não alterações em embriões que podem introduzir novas características aos humanos, já que não é ético brincar de deus. Para isso, a comunidade científica deve promover palestras e desenvolver propagandas junto às instituições de ensino e mídia, para aumentar o debate público sobre o assunto e permitir que as pessoas conheçam e entendam os processos biotecnológicos, e assim não criem preconceitos sem conhecimento prévio, além de poderem pressionar a ciência caso ela saia do espaço ético.