Desafios para a conciliação da Biotecnologia e a Ética
Enviada em 06/03/2020
A obra Frankenstein, de Mary Shelley, narra a história do pesquisador Victor, que após diversos experimentos, consegue produzir vida sintética em seu laboratório e, ao contemplar sua criação, se apavora e foge. Fora da ficção, o progresso constante da biotecnologia faz com que ela se aproxime cada vez mais da conquista descrita no livro, superando, de maneira muito mais rápida, a capacidade da sociedade de se adaptar às novidades científicas, de maneira análoga ao livro, o que causa uma série de consequências, como o temor coletivo da repetição de experimentos inescrupulosos como os do passado e a impossibilidade de avanços significativos em determinadas áreas.
A priori, o século XX foi marcado por uma série de evoluções no estudo da vida e da natureza, obtendo para si várias descobertas antes jamais imaginadas. Entretanto, em diversas localidades do globo, esse impulso foi gerado a partir de pesquisas que rompem o princípio ético do voluntariado, ou seja, do desejo do participante em contribuir para aquilo. Um grande exemplo desse fato está no livro A Bibliotecária de Auschwitz, de G. Iturbe, em que Mengele, pesquisador nazista de um campo de concentração, faz diversos experimentos compulsórios em cobaias humanas, a exemplo de infectar gêmeos com a mesma doença e ver como ela reage em cada organismo. Situações análogas a essa, quando disseminadas pelo mundo, acabaram gerando resistência na população a qualquer tipo de pesquisa semelhante, fato esse infelizmente perpetuado até os dias atuais.
Concomitante a isso, o pensamento exposto por Hipócrates, pai da medicina, em que “antes de se curar alguém, pergunte-o se está disposto a renunciar às coisas que o adoecem” indica, com precisão, o dilema encontrado na medicina moderna: há um anseio cada vez maior por mais descobertas e procedimentos inovadores, enquanto, em contrapartida, não são dadas legalmente as concessões necessárias, a exemplo do uso de células-tronco embrionárias, que poderiam ser utilizadas para amenizar diversas doenças, mas que em diversos países, incluindo o Brasil, são limitadas apenas a estudos com grandes restrições, impossibilitando, assim, progressos consideráveis nesse setor.
É necessário, dessarte, um consenso entre o progresso e a moral, cabendo tanto ao Poder Legislativo elaborar uma regulamentação mais flexível nesse setor, permitindo e incentivando novas pesquisas de temas anteriormente proibidos, contanto que não violem os direitos humanos, quanto à Secretaria Especial de Comunicação produzir cartilhas e propagandas que expliquem como essas novas tecnologias podem contribuir para o tratamento de problemas até então incuráveis,divulgados em todos os ambientes públicos, para que, assim,a qualidade de vida humana chegue a um novo patamar, e ao contrário de Victor, a sociedade possa se orgulhar de suas descobertas.